A separação política entre Reino Unido e União Europeia, o chamado Brexit, pode ter chegado às manchetes internacionais do ano passado, mas a clivagem original dessas duas massas pode ter ocorrido pela primeira vez há muito tempo, mais especificamente há cerca de 450 mil anos, de acordo com a Science Alert.

Ao que se sabe, naquela época, a Grã-Bretanha, que hoje é uma ilha da Europa que abriga a Inglaterra, Escócia e País de Gales, estava unida ao resto de todo o continente europeu por meio de uma enorme ponte terrestre que se estendia do continente britânico até a França. No entanto, conforme sugeriu uma nova pesquisa publicada na revista Nature Communications, essa região só permaneceu como tal até que cachoeiras geladas começassem a cair em cascata para quebrar esse vínculo – o que também resultou em uma enchente catastrófica.

De acordo com o cientista Sanjeev Gupta, do Imperial College de Londres, uma série de eventos geológicos preparou o cenário para a Grã-Bretanha se tornar o que é hoje: uma ilha. Se não fosse por esses eventos, em certo sentido, a história da Grã-Bretanha poderia ter sido completamente diferente”, disse.

Junto a uma equipe, Gupta analisou dados coletados do fundo do mar por meio de navios de pesquisa no Canal da Macha, em águas entre Inglaterra e França – mais especificamente no leito submarino do Estreito de Dover, a parte mais estreita do Canal entre as cidades portuárias de Dover, na Inglaterra, e Calais, na França.

Essa passagem é marcada por sete gigantescos buracos formados no fundo do mar, que possuem quilômetros de diâmetro e se estendem a uma profundidade de cerca de 100 metros. Contudo, a Ciência nunca deixou claro o que exatamente causou essas formações. Agora, e graças às análises da equipe de Gupta, descobriu-se que elas foram causadas pelo dilúvio de uma enorme cachoeira que fazia parte da ponte terrestre que uma vez se estendeu entre Grã-Bretanha e Europa.

Com base nas evidências que vimos, acreditamos que o Estreito de Dover de 450.000 anos atrás teria sido uma enorme crista de rocha que unia a Grã-Bretanha à França”, disse um dos membros da equipe, Jenny Collier. “Mas, ele parecia mais com uma tundra congelada, como as da Sibéria, do que o ambiente verde que conhecemos hoje”.

Esse trecho de cachoeiras teria se estendido por cerca de 32 quilômetros entre a Grã-Bretanha e a França, a uma altura de 100 metros acima do lado sudoeste do vale, de acordo com os pesquisadores.

A área hoje, conhecida como Mar do Norte, teria formado um enorme lago proglacial alimentado por uma camada de gelo gigante que uma vez se estendeu da Grã-Bretanha para a Escandinávia. Essa água gelada foi segurada pela ponte, formando uma represa natural. Mas, em algum ponto começou a vazar, inundando o vale no processo. Nós ainda não sabemos com certeza por que o lago proglacial inundou”, disse Collier. “Talvez parte da camada de gelo tenha quebrado, desabando no lago e causando uma onda que esculpiu um caminho para a água cair em cascata”.

Essa água em cascata, enquanto caiu, fez furos no fundo do mar. A catastrófica inundação, de acordo com a equipe, possivelmente desencadeada pela atividade sísmica e alimentada por águas geladas provenientes das camadas de gelo, ajudou a quebrar os restos da ponte em terra.

Contudo, os pesquisadores reconhecem que precisarão realizar mais estudos para determinar suas hipóteses e fornecer um cronograma mais preciso dos eventos. Para isso, eles pretendem coletar amostras de sedimentos para descobrir mais sobre o momento da erosão. Mas, esta não é uma tarefa fácil, dado que o Estreito de Dover experimenta grandes mudanças de marés, bem como é uma das regiões de navegação mais movimentadas do mundo.

É muito difícil persuadir os capitães dos navios a fazê-lo”, disse Gupta. “Eu diria que sabemos mais sobre Marte do que a geologia submarina dessas camadas continentais ao redor do mundo”.

[ Science Alert / The Guardian / Imperial College London ] [ Foto: Reprodução / Science Alert ]

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