Johnson & Johnson quer pagar R$ 33 bilhões para encerrar processos que alegam que seu talco causou câncer

de OTTO HESENDORFF 0

A Johnson & Johnson está prestes a fazer um dos maiores acordos da história para encerrar processos alegando que seu talco causa câncer de ovário. Sob o novo acordo proposto, a gigante farmacêutica pagaria cerca de US$ 6,5 bilhões (equivalente a mais de R$ 33 bilhões na cotação de hoje) no total para dezenas de milhares de pessoas que entraram com ações contra a empresa.

A J&J afirma, de acordo com o jornal britânico Daily Mail, que espera que a proposta de acordo seja aprovada. A companhia já pagou bilhões de dólares por causa de processos envolvendo seu icônico talco mundialmente conhecido já descontinuado  incluindo US$ 700 milhões a estados por propaganda enganosa e mais de US$ 2,12 bilhões a 22 mulheres que culparam o talco pelo câncer de ovário, afirma o Daily Mail.

Apesar das acusações e processos, a Johnson & Johnson, sediada em Nova Jersey, EUA, não admitiu culpa e continua insistindo que seu talco é seguro, não continha amianto e não causava câncer.

O acordo marca a terceira vez que a J&J considera pedir falência de uma subsidiária para resolver os processos, depois que os tribunais rejeitaram suas duas tentativas anteriores. A última proposta entrará agora em um período de votação de três meses na empresa antes de ser finalizada.

O pedido anterior de falência suspendeu o caso, mas em julho de 2023 um juiz federal determinou que o segundo caso fosse arquivado, permitindo que o terceiro prosseguisse.

Não ficou claro quanto poderia ser pago a cada pessoa que entrou com um processo, mas em casos anteriores, a J&J pagou US$ 2,12 bilhões a 22 mulheres que culparam o amianto em seu talco pelo câncer de ovário. No mês passado, a J&J também foi condenada a pagar US$ 45 milhões à família de um usuário de talco para bebês em Chicago.

O talco é um mineral natural que absorve umidade e reduz o atrito, tornando-o útil para manter a pele seca e ajudar a prevenir assaduras. Ele era usado para fazer o talco para bebês da J&J, popular por décadas por ajudar crianças a evitar assaduras de fralda e adultos a evitar irritações.

No entanto, o mineral extraído da terra pode conter pequenas quantidades de amianto em sua forma natural, de acordo com alguns estudos um carcinógeno conhecido por causar câncer quando inalado repetidamente.

Uma vez que as fibras de amianto entram no corpo, elas podem se alojar no tecido mole permanentemente, causando danos celulares graves e inflamação ao longo do tempo o que pode levar ao câncer.

Muitas das alegações são feitas por mulheres que afirmam ter desenvolvido câncer de ovário por causa do talco, ou pessoas que foram diagnosticadas com mesotelioma, um câncer da membrana fina e transparente que cobre e reveste o interior da parede torácica e abdômen que pode ser causado pela inalação de amianto tóxico.

Entre as alegadas vítimas está Lora Stahl, de 56 anos, de Nebraska, EUA, que alega ter que fazer uma histerectomia e ser privada da chance de formar uma família depois que o talco para bebês causou a formação de um tumor cancerígeno em seus ovários, segundo ela.

Ela foi diagnosticada com câncer de ovário em estágio II aos 35 anos, e os médicos precisaram remover seu útero, colo do útero e ovários para impedir a disseminação da doença.

Outra mulher que processa a empresa é Emory Valadez, de 24 anos, da Califórnia, que disse que o talco para bebês da empresa a fez desenvolver um câncer raro e mortal.

Em março deste ano, a J&J teve uma nova chance de contestar as evidências científicas que ligam o talco ao câncer de ovário no tribunal federal de Nova Jersey. O juiz que supervisiona os casos disse que mudanças recentes na lei e novas evidências científicas exigem uma nova revisão, e pediu à J&J que apresentasse novos argumentos científicos até o final de julho de 2024.

A J&J disse que continuará se defendendo dos processos enquanto tenta obter votos sobre o acordo final de R$ 33 bilhões. A empresa afirma, segundo nota ao Daily Mail, ter vencido 95% dos casos de câncer de ovário julgados até o momento, incluindo todos os casos alegados e julgados nos últimos seis anos.

Afinal, o que é talco?

É um mineral que ocorre naturalmente na terra. Ele é composto principalmente de magnésio, silício e oxigênio, formando a substância mineralógica conhecida como silicato de magnésio hidratado.

O talco é conhecido por ser o mineral mais macio da Escala de Dureza de Mohs, onde é classificado com a dureza 1. Isso significa que ele pode ser facilmente riscado com uma unha. Além disso, possui uma textura “gordurosa” ao toque e é altamente resistente ao calor.

É encontrado em depósitos naturais em várias partes do mundo. Estes depósitos são frequentemente associados a outros minerais. Além do uso em pós e produtos de higiene, o talco é também utilizado em várias aplicações industriais. Por exemplo, é usado como lubrificante, para evitar aderências, em cerâmicas, plásticos, tinta, papel e até em alimentos e medicamentos.

O talco puro é considerado seguro, mas a contaminação com amianto em algumas minas levantou questões sobre os riscos de câncer associados ao uso prolongado de produtos contendo talco, particularmente pós de talco. O amianto é uma variedade fibrosa de sais minerais de ocorrência natural.

A inalação das fibras de amianto pode causar várias doenças graves, incluindo doença pulmonar fibrosa, câncer de pulmão, e mesotelioma. O amianto é perigoso porque suas fibras podem se fragmentar em partículas microscópicas que, uma vez inaladas, ficam retidas nos pulmões e causam danos ao longo do tempo.

Devido aos riscos à saúde, o uso do amianto tem sido proibido ou fortemente regulamentado em muitos países. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a produção, comercialização e uso de produtos contendo amianto do tipo crisotila em 2017, seguindo a tendência mundial de restrições ao uso deste material.

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Fonte(s): Daily Mail Imagem de Capa: Reprodução / Flickr

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