Helena Larroque: A história esquecida da mulher que desmascarou mitos do câncer

Helena Larroque de Roffo criou uma escola de enfermagem e se dedicou à divulgação científica. Há 100 anos fundou a LALCEC (Liga Argentina de Luta Contra o Câncer), uma das primeiras associações voltadas para a prevenção do câncer no continente americano. Seu legado, segundo especialistas, é um dos mais importantes da história e da medicina.

de Redação Jornal Ciência 0

Helena Larroque estava na faculdade quando teve febre tifoide, uma infecção bacteriana, e nunca conseguiu terminar o curso de medicina.

Jornal Ciência no seu WhatsApp

Clique aqui (61) 98302-6534, mande “olá” e salve nosso número nos seus contatos. Você receberá notícias do Jornal Ciência diretamente no seu celular.

Mas, sua verdadeira vocação para a saúde dos outros ia além de um diploma. Ela veio trabalhar com a famosa cientista Marie Curie, na França, e voltou à Argentina para mudar tudo. Com seu marido cientista, promovendo pesquisas sobre o câncer e suas causas.

Ela conversou diretamente com a comunidade e desmascarou mitos sobre a doença. Criou uma escola de enfermagem, uma associação cultural de divulgação científica, e a Liga Argentina de Luta Contra o Câncer — hoje mais conhecida como LALCEC —, uma das primeiras organizações não governamentais do continente americano dedicada à educação para a prevenção. Larroque fez tudo isso há 100 anos.

Ela nasceu em 1883 em Concepción del Uruguay, uma província Argentina. Aos 20 anos, se mudou para Buenos Aires para estudar medicina em uma época em que as mulheres encontravam barreiras para acessar as universidades. Na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, Larroque se apaixonou por um de seus colegas, Ángel H. Roffo, e aí começou uma relação que combinava amor mútuo e paixão pela ciência.

Na faculdade, Larroque conheceu e se apaixonou por Angel H. Roffo. Juntos, desenvolveram pesquisas sobre o câncer, embora apenas ele tivesse notoriedade pública. Foto: Divulgação. 

Depois de sofrer de febre tifoide, Larroque perdeu os pais e mais tarde casou-se com Roffo, com quem teve um filho. Desenvolveu sua vocação de serviço em tudo o que empreendeu e deixou um legado ainda desconhecido.

 Hoje se fala em “pesquisa translacional” na medicina como forma de trazer descobertas em laboratórios com mais rapidez às necessidades dos pacientes, sem descuidar da prevenção de doenças. Porém, à sua maneira, Helena Larroque já lançava ações nessa direção com o próprio olhar há mais de um século: “Na medicina, a mulher tem a superioridade do coração sobre o homem”, escreveu ela.

Após a Primeira Guerra Mundial, Larroque viajou com seu marido e cientista para a França, Suíça, Alemanha e Itália. Ela conheceu a famosa Marie Curie e trabalhou com ela e sua equipe. Segundo o livro Mujeres Benfeitoras del Mundo, escrito pelo casal María Luisa e Pedro Belmes, em 1956, Larroque fez aulas na Universidade de Sorbonne, em Paris, e publicou artigos científicos.

Desde o final do século 19, “havia um debate sobre como a prática médica poderia ser melhorada. Na viagem que Helena Larroque e Ángel Roffo fizeram à Europa, conheceram de perto o funcionamento de instituições dedicadas à pesquisa científica e voltaram à Argentina com ideias de mudança que incluíam o atendimento médico vinculado à pesquisa experimental no mesmo lugar”, disse José Buschini, sociólogo, doutor em ciências sociais e pesquisador do Instituto de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Nacional de La Plata e Conicet, que estudou os primórdios da oncologia na Argentina, em entrevista ao portal Infobae.

“Apesar de não ter conseguido se formar em medicina, Larroque também fez pesquisas científicas com o marido, que era uma figura pública mundialmente conhecida. Ao pesquisar, ela se concentrou mais nos aspectos físico-químicos relacionados às células cancerosas. Foi parte do início do desenvolvimento da oncologia na Argentina, no momento em que Bernardo Houssay, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1947, e Salvador Mazza, em parasitologia, começavam a se destacar”, comentou Buschini.

Larroque e seu marido Roffo trabalharam para descobrir mecanismos que levam ao câncer. Após a morte de Larroque, Roffo continuou trabalhando e encontrou evidências do desenvolvimento de câncer pelo uso do cigarro.

Com o marido, apostou no projeto de criar uma instituição que se dedicasse a investigar o câncer, como dar total atenção aos pacientes. Conseguiu construir o Instituto de Medicina Experimental, em Buenos Aires, que hoje é conhecido pelo nome de seu marido, o Instituto de Oncologia Angel H. Roffo. Larroque foi a responsável por angariar fundos para concretizar o projeto.

O instituto foi erguido no meio de jardins, mas ela e seu marido encontraram resistência ao projeto porque as pessoas do bairro não queriam pacientes com câncer nas proximidades.

“Naquela época, algumas pessoas acreditavam que o câncer era uma doença contagiosa. Por isso, os vizinhos se opuseram e até ameaçaram matar o Dr. Roffo. Mas essa percepção foi mudando graças ao trabalho de Larroque que organizou pequenos concertos pelo Instituto e convidou o bairro a conhecer de perto o local com os pacientes”, disse o médico Sergio Gianni, que hoje é diretor interino da área cirúrgica do Instituto.

Uma das inovações de Helena Larroque e seu marido foi a investigação das causas do câncer, compartilhando o conhecimento simultaneamente com a comunidade. Eles queriam dizer às pessoas o que encontravam nas pesquisas do laboratório. Mesmo após décadas, ela continuou dando palestras para desmistificar a causa do câncer.

Roffo, que foi o primeiro diretor do Instituto, tornou-se líder mundial em oncologia. Ele foi um dos cientistas que descobriram que fumar tabaco causa câncer e foi candidato ao Prêmio Nobel. Ele foi reconhecido pelo Governo da Alemanha como um cientista. Em 1935, foi publicado um livro em sua homenagem com artigos de 250 pesquisadores de todo o mundo, fato que indica a importância de seu trabalho.

Apesar de toda a atenção voltada para o marido, a verdade é que Larroque teve importante contribuição para o sucesso e reconhecimento dele na área médica e científica.

“É claro que se Helena Larroque não existisse, Roffo não teria sido o grande cientista que foi, nem o instituto teria sido criado. Esta instituição foi pioneira no continente americano ao se dedicar exclusivamente à pesquisa do câncer e ao atendimento do paciente. O apoio de Helena também foi fundamental para a obtenção de recursos para a criação do instituto e para a realização das pesquisas. Ela era uma mulher com uma mente brilhante e extremamente trabalhadora”, disse o médico Dr. Gianni em entrevista ao Infobae.

Larroque criou uma escola de enfermagem que hoje leva seu nome associada ao Instituto de Oncologia e à Associação Cultural Villa del Parque, onde aconteciam conferências de divulgação científica e atividades recreativas para crianças. Ela integrou uma comissão do Conselho Nacional da Mulher, na Argentina, e trabalhou em um projeto de lei a favor da emancipação civil da mulher, entre outras atividades.

Ao perceber que apenas a pesquisa e o atendimento a pacientes com câncer não eram suficientes, Larroque foi além e fundou o LALCEC (Liga Argentina de Luta Contra o Câncer), inspirada por uma organização que havia visto na França.

Larroque promoveu tanto a pesquisa científica em laboratório quanto o atendimento clínico aos pacientes. Na foto, um momento de atendimento ao paciente onde hoje é o atual Instituto de Oncologia Angel H. Roffo.

“Nossa luta diária é contra um inimigo invisível, mas previsível, e a melhor maneira de combater o câncer é trabalhando na prevenção e detecção precoce em toda a Argentina”, disse ela à época. Neste momento, não existia nem mesmo o teste de Papanicolau para detectar células pré-cancerosas em mulheres. Larroque teve papel fundamental sobre o conhecimento do câncer como conhecemos hoje.

“Helena Larroque percebeu que os pacientes com câncer demoravam para ter o diagnóstico e passou a promover a educação para a prevenção. Ela fez isso conversando. Hoje, isso é quase inimaginável em um mundo onde predominam as redes sociais e os encontros virtuais”, afirmou em diálogo com o Infobae María Cristina Espil, atual presidente do LALCEC.

No dia da fundação do LALCEC em 1921, uma reunião foi realizada no coração de Buenos Aires. Foi na casa de um dos membros do comitê executivo que Larroque passou a presidir. Ela e muitas outras mulheres estavam decididas a trabalhar pela prevenção e o melhor atendimento aos pacientes.

Tampouco se esqueceram dos pacientes terminais no primeiro estatuto da associação: “Teremos também como missão o atendimento aos enfermos nos hospitais e nas casas, aos quais, mesmo nos piores casos, será sempre um consolo poder trazer apoio moral”, disse.

O objetivo ia desde a prevenção do câncer na comunidade até o acompanhamento dos pacientes, mesmo que já não existisse mais tratamento adequado. A contribuição de Larroque para a oncologia foi impressionante. Hoje, 70% das mortes por câncer no mundo ocorrem em países de média ou baixa renda, de acordo com a OMS, o que ressalta o trabalho de Larroque sobre o conhecimento difundido no continente americano.  

Alunas da Escola de Enfermagem criada por Helena Larroque.

Em fevereiro de 1924, Larroque tinha 41 anos e se propôs a organizar um curso de puericultura (subespecialidade da pediatria) voltado à prevenção de doenças infantis. Mas dois dias depois, sofreu um derrame e faleceu quando seus novos projetos estavam em andamento.

Em 1926 foi feito um monumento em sua homenagem. Larroque, sem dúvida, era uma mulher vanguardista, à frente do seu tempo, que merece reconhecimento por sua contribuição para o conhecimento científico sobre o câncer.  

Fonte(s): Infobae Imagens: Divulgação / Infobae

Jornal Ciência