Animais podem cometer suicídio? Há casos registrados, mas cientistas têm dúvidas. Entenda!

Muitos animais matam a si mesmos de forma acidental ou através de comportamentos autodestrutivos. Mas, estariam eles cometendo suicídio de forma consciente?

de Redação Jornal Ciência 0

Em abril de 1970, o treinador de golfinhos Ric O’Barry visitou uma golfinho fêmea chamado Kathy em Miami, depois de aparecer por 3 anos na série de televisão Flipper. Ric O’Barry foi o seu treinador e achou que a golfinho estava deprimida, como citado na revista Discover.

Jornal Ciência no seu WhatsApp

Clique aqui (61) 98302-6534, mande “olá” e salve nosso número nos seus contatos. Você receberá notícias do Jornal Ciência diretamente no seu celular.

Os golfinhos são animais muito sociáveis e Kathy estava sozinha em um tanque de cimento. Ric O’Barry conta que o animal nadou até ele, foi para o fundo do tanque e recusou-se a voltar à tona, morrendo afogada.

O acontecimento acabou por motivar O’Barry a tornar-se um ativista pelos direitos dos animais, em especial dos mamíferos marinhos.

Mas, será que os animais podem cometer suicídio? A questão é complexa e se não há respostas definitivas sobre o suicídio em humanos e suas causas, as respostas são ainda mais escassas no caso dos animais.

Apesar do conhecimento da consciência animal estar crescendo na ciência, há dúvidas de que os animais têm consciência da morte e capacidade de planejá-la.

Sabemos que os animais têm graus variados de autoconsciência, podem sofrer de depressão ou outras doenças mentais, são capazes de comportamentos autodestrutivos, têm alguma noção da morte, podem fazer luto e até são capazes de planejar o futuro em certos casos.

Muitos cientistas acreditam que a tese de que os animais se suicidam é apenas mais um exemplo de antropomorfismo, ou seja, a atribuição de características humanas a algo que não é humano.

C.A. Soper, autor do livro “A Evolução do Suicídio”, acredita que casos como o de Kathy “dizem mais sobre o observador do que o observado”.

Já do lado dos que defendem a possibilidade do suicídio animal, muitos chamam à posição cética de pessoas como C.A. Soper, de “negacionismo antropo”. Desvalorizar imediatamente a possibilidade de animais pensarem e agirem de forma consciente, apenas para dizer que isso é exclusividade humana, pode ser algo muito precipitado, de acordo com cientistas.

Assim, estas capacidades devem ser vistas num espectro. As emoções dos animais, como o luto, a depressão, a raiva ou a alegria, podem não se manifestar da mesma forma que se manifesta nos humanos, mas isso não significa que não existam, e o mesmo pode ser dito do suicídio.

Segundo David Peña-Guzman, professor universitário de Filosofia e autor de um artigo de 2017 sobre o tema, “temos de aprender a lidar com a incerteza sobre a questão e adotar uma posição de humildade epistémica. Temos de estar abertos à possibilidade, não podemos descartá-la”, afirma.

A posição de Penã-Guzman recebeu respostas de outros especialistas no comportamento dos animais, deixando os cientistas confusos e divididos. Alguns, apoiam suas ideias, outros são completamente contra. Em 2018, o professor escreveu uma resposta aos seus críticos.

Os argumentos que caem para cada um dos lados (contra ou a favor) dependem mais de casos singulares do que provas empíricas.

Um exemplo famoso é a história que Jane Goodall conta sobre a morte de um dos seus chimpanzés. Flint aparentemente perdeu a vontade de viver depois da morte da sua mãe, Flo, e parou de comer. O chimpanzé morreu um mês depois no Parque Nacional de Gombe Stream, na Tanzânia.

Ryan Hediger, investigador da Universidade de Kent, acredita que há “comportamentos por aí que nós simplesmente ainda não vimos quantidades de vezes suficientes para saber como interpretar”, aponta.

Também já foram registados casos semelhantes ao de Flint em cães e elefantes, mas nem todos os comportamentos autodestrutivos dos animais podem ser entendidos como intencionalmente suicidas. Por exemplo, algumas espécies de abelhas abandonam as suas colmeias quando são parasitadas por moscas para proteger a sua colônia, segundo um estudo de 1992.

O caso dos lemingues (um pequeno roedor) que se atiram de penhascos, que um documentário de 1958 da Disney ajudou a popularizar, também não parece ser suicídio. Aparentemente, estes saltos para o abismo são uma consequência da superpopulação e não de tendências suicidas conscientes.

Mas, há casos muito mais ambíguos. O biólogo George Schaller relembra o caso de um búfalo que, depois de ter sido ferido por leões, conseguiu fugir e voltar à sua manada.

No entanto, o animal decidiu abandonar o grupo outra vez e permitiu aos leões que o matassem. Não se sabe o que motivou esta escolha — o búfalo pode ter pressentido que não ia resistir aos ferimentos, querer afastar os predadores da sua manada ou simplesmente ter escolhido morrer.

No livro “Como os Animais Fazem o Luto”, a professora de Antropologia, Barbara King, relata o incidente de uma mãe urso que, com seu filhote, foram usados na ordenha da vesícula biliar — onde é inserido cateteres dentro do órgão para retirar bile usada na produção de medicamentos à época. A mãe conseguiu se libertar, sufocou o filhote e morreu em seguida se jogando contra a parede.

Será que atos como deixar de comer ou respirar podem ser considerados suicídio? Peña-Guzman acha que podem. “Há uma pergunta na literatura da psicologia humana sobre se o suicídio conta apenas em casos ativos de autodestruição ou se também inclui casos de suicídio passivo, e eu prefiro a definição mais inclusiva, que abrange até o caso da golfinho fêmea”, afirma.

Já Soper contraria a ideia: “Muita da confusão parte de definições inúteis. Aqueles que acham que não-humanos podem cometer suicídio têm de começar com uma definição de suicídio tão abrangente que praticamente qualquer ato de automutilação possa contar”.

Enquanto uns acreditam que os animais não têm consciência sequer da existência de morte, outros argumentam que não se pode desvalorizar os casos de animais que acabam por causar a própria morte.

Apesar das opiniões divididas, uma coisa é certa: esta questão vai continuar a fomentar mais estudos e hipóteses na comunidade científica.

Fonte(s): ZAP / Discover / Imagens: Reprodução / Shutterstock

Jornal Ciência