Incesto não é tabu no reino animal e pode trazer benefícios, diz revisão de 40 anos de estudos

No reino animal não existe um tabu propriamente ao incesto como nos seres humanos. Em alguns casos, a consanguinidade até pode ser benéfica

de Redação Jornal Ciência 0

Nós, humanos, tendemos a considerar o incesto profundamente perturbador. É um forte tabu social e é sustentado por um sólido raciocínio biológico. Misturar genes com um não-parente é benéfico porque aumenta a diversidade genética, enquanto defeitos genéticos geralmente ocorrem nos filhos de pais que são familiares.

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Esperaríamos ver a mesma atitude estender-se aos animais, que podem não ter aversão social ao incesto, mas estão sujeitos às mesmas pressões biológicas para produzir as crias mais aptas.

Mas, um estudo recentemente publicado na revista Nature Ecology & Evolution questionou esta suposição. Os cientistas reviram 40 anos de estudos sobre seleção de parceiros animais e descobriram que eles não tendem a diferenciar familiares e não familiares ao escolherem um parceiro.

Isto pode parecer surpreendente ou perturbador, mas os cientistas da evolução das espécies apontam que a consanguinidade nem sempre é má — e que em alguns casos, por exemplo, quando a escolha do parceiro é limitada, pode até ser benéfica.

Os animais consideram uma variedade de fatores na escolha de um parceiro. Um deles é o grau de parentesco, mas os animais também estão interessados nos recursos que o parceiro pode fornecer e se carregam genes desejáveis.

A escolha de um parceiro sem laço familiar é atrativa, visto que aumenta a diversidade genética das crias. O acasalamento com um parente, por outro lado, aumenta a probabilidade de os pais transmitirem doenças genéticas raras para as crias.

Isto acontece porque metade dos genes das crias vêm de cada um dos pais. Normalmente, se um dos pais carrega um gene para uma doença genética rara, o outro pai carrega a versão saudável desse gene, que é então expresso nos descendentes. Mas quando os pais são familiares, há uma chance maior de que ambos os pais sejam portadores dos mesmos genes prejudiciais.

Portanto, há fortes razões para os animais evitarem o acasalamento com um parente — mas há alguma situação em que a consanguinidade possa realmente ser benéfica?

Acasalar com um parente

Um cenário óbvio em que os animais acasalam com os seus parentes é quando simplesmente não há outra opção. Se os animais são compelidos a transmitir os seus genes, esperamos que eles prefiram reproduzir com um parente do que não fazer o que estão designados, ou seja, perpetuar a espécie.

Mas também pode haver uma razão mais contraintuitiva por trás de alguma consanguinidade animal. Como Richard Dawkins estabeleceu em “O Gene Egoísta”, os animais desejam transmitir o máximo possível dos seus genes. Desta perspectiva, quanto mais genes um animal passa para a próxima geração, melhor ele se sai.

Acasalar com um parente pode ser uma ótima maneira de fazer isso. Como tantos genes são partilhados entre familiares, uma proporção maior de ambos os genes será passada para a próxima geração se eles acasalarem.

Os animais que evitam a consanguinidade também precisam gastar energia para isso, inclusive quando aprendem a distinguir parentes dos outros indivíduos. Economizar energia às vezes é crucial para a sobrevivência de um animal. Então, aprender a evitar a consanguinidade pode nem sempre ser a melhor estratégia para alguns animais.

Medir a consanguinidade

Cientistas têm usado modelos matemáticos para prever como que os animais devem comportar-se em diferentes cenários, pesando os custos e benefícios das suas ações.

Quando aplicados à endogamia (com parentes), os custos incluem o risco de transmissão de doenças genéticas raras ou defeitos, enquanto os benefícios incluem a transmissão de genes de maneira mais eficiente — além de aumentar as oportunidades de acasalamento.

Mesmo considerando outros fatores, como habitats e tamanho da população, os modelos concluíram que tolerar a consanguinidade é a estratégia de maior sucesso para os animais.

Esta hipótese foi testada experimentalmente numa ampla variedade de espécies animais, desde mamíferos até à mosca da fruta. Nestas experiências, os animais têm a opção de acasalar com um parente ou um outro indivíduo.

Este estudo não encontrou evidências de que os animais diferenciam entre familiares e outros indivíduos quando é dada a escolha de um parceiro. Nem todas as espécies foram estudadas para procriação consanguínea, mas o estudo incluiu uma ampla gama de espécies.

*Texto de Regina Veja Trejo — pesquisadora de pós-doutorado do Departamento de Zoologia da Universidade de Estocolmo e por Raïssa de Boer, bióloga evolucionista, PhD pela Universidade da Antuérpia, Bélgica, cientista da computação e reumatologista pela Universidade de Lund, Suécia.

Fonte(s): The Conversation / Editado por ZAP Imagens: Reprodução / Shutterstock

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