A verdade por trás da primeira morte por “overdose” de maconha que teria ocorrido com uma criança

de Merelyn Cerqueira 0

Você viu aqui no Jornal Ciência  no mês passado sobre a primeira overdose fatal de maconha, que ocorreu em 2015 no Colorado (EUA) e envolveu uma criança de apenas 11 meses.

Jornal Ciência no seu WhatsApp

Clique aqui (61) 98302-6534, mande “olá” e salve nosso número nos seus contatos. Você receberá notícias do Jornal Ciência diretamente no seu celular.

Embora a notícia tivesse causado alvoroço em muitos leitores, os relatórios originais mais recentes foram baseados na divulgação do estudo do caso, publicado no início desse ano.

A criança teria morrido em um hospital no Colorado, logo após sofrer uma convulsão seguida de parada cardíaca.

Exames post-mortem revelaram que ela teria miocardite, uma inflamação no tecido do coração, bem como altos níveis de THC (principal ativo da maconha) no sangue. Ainda, as concentrações sugeriam que a droga teria sido consumida como alimento.

O relatório revelou ainda que a criança vivia em condições insalubres com os pais em um quarto de motel, e que estes abusavam de diferentes drogas ilícitas. No entanto, em termos de saúde, era uma criança saudável.

“Existe uma possível relação entre a exposição à Cannabis e a miocardite que levou a criança à morte […] Esta é a primeira morte pediátrica relatada associada à exposição à cannabis”, escreveram os médicos no estudo.

No entanto, mais recentemente, conforme informações da IFL Science, os médicos do caso novamente vieram a público dizer que suas palavras foral mal interpretadas e que os primeiros relatórios noticiosos eram “totalmente exagerados”.

Eles argumentaram que a possível associação entre a exposição à droga e a miocardite da criança não indicava uma relação de “causa e efeito”. Logo, não havia qualquer evidência direta que sugerisse a ligação e, portanto, negam rigorosamente qualquer causalidade direta entre a maconha e a morte.

“Nós absolutamente não estamos dizendo que a maconha matou essa criança”, disse o Dr. Thomas Napp, do Rocky Mountain Poison and Drug Center, em Denver, ao jornal Washington Post. O Dr. Christopher Hoyte, que também trabalhou no caso, fez coro ao colega de trabalho, negando a relação.

“Notícias exageradas de que a criança teve miocardite após a exposição à maconha. Acabamos de dizer que são necessários mais estudos para isso. Não estamos dizendo que a maconha fosse a causa da morte…”, escreveu Dr. Hoyte em sua conta no Twitter.

O DEA (US Drug Enforcement Agency) reconhece abertamente a inexistência de qualquer overdose fatal relacionada à maconha. Considerando o fato de que os humanos vêm consumindo a droga há mais de 10.000 anos, este não é exatamente um histórico ruim.

Em termos de drogas recreativas e efeito para a saúde física, a maconha é uma das mais seguras quando comparada ao tabaco, álcool, cocaína e heroína. Em 1988, o DEA afirmou que uma dose letal de maconha precisaria ser de 20.000 a 40.000 vezes mais do que a quantidade encontrada em um único cigarro. Em outras palavras, você precisaria fumar “quase 680 quilos da erva em apenas 15 minutos” para conseguir tal efeito.

Entretanto, há de se ressaltar que não há muitos estudos científicos recentes sobre a toxicidade da maconha.

Logo, este era precisamente o que o estudo de caso da criança do Colorado queria alcançar. A ideia dos médicos era reabrir uma via de investigação sobre a possível relação entre grandes quantidades da droga e a inflamação dos músculos cardíacos.

Tal ligação já havia sido observada em outros relatórios e estudos de caso. No entanto, há ainda poucas evidências que a legitimem.

Fonte: IFL Science Foto: Reprodução / Jornal Ciência

Jornal Ciência