Mucormicose: infecção rara por fungos está “mutilando” pacientes curados da Covid-19 na Índia

Também chamado de “fungo negro”, trata-se de um tipo raro de infecção. Os médicos indianos afirmam que o problema está aumentando no país, especialmente entre os jovens curados da Covid-19.

de Osmairo Valverde 0

Os médicos na Índia estão exaustos por enfrentar as consequências da nova onda da pandemia de Covid-19 que está devastando o país com consequências catastróficas.

O país registrou picos recordes com quase 400.000 novas infecções em 24 horas por cinco dias seguidos. Agora, um problema igualmente sério surge: amputações provocadas por uma doença fúngica rara, chamada de mucormicose ou “fungo negro”.

De acordo com os médicos indianos, os casos, que antes eram considerados muito raros, estão se espalhando entre os pacientes, especialmente os mais jovens.

O cirurgião oftalmologista Dr. Akshay Nair, de Mumbai, capital da Índia, disse que estava aguardando uma paciente diabética de 25 anos, que havia se recuperado da Covid-19 há 3 semanas, para realizar uma cirurgia de amputação de olho após ter contraído o fungo.

Enquanto aguardava na sala cirúrgica, seu colega otorrinolaringologista estava realizando um procedimento na mesma paciente usando uma cânula para remover tecidos mortos e infectados com mucormicose. Este tipo de infecção costuma afetar gravemente os olhos, o nariz, e até mesmo o cérebro — o que pode ser fatal.

O que é e como a doença age?

Na verdade, a doença pode ser causada não apenas por um único fungo, mas fungos de três gêneros diferentes: Rhizopus, Rhizomucor e Mucor.

Eles são considerados um tipo de “bolor”, e estão presentes normalmente no solo, em vegetais como frutas e legumes, esterco de animais, diversas plantas e especialmente vegetais em decomposição. Trata-se de um tipo extremamente perigoso de infecção.

A mucormicose pode atingir os seios da face (cavidades ósseas que temos no rosto e se enchem de muco quando estamos gripados ou com sinusite, por exemplo), os pulmões, o cérebro e as cavidades internas do nariz. Diabéticos, imunodeprimidos, como pessoas com câncer ou HIV/AIDS podem ser os mais afetados e ser fatal.

Em algumas doenças, os seios da face podem ser preenchidos por muco e conter alguns tipos de fungos. Foto: Reprodução / Shutterstock

O Dr. Akshay Nair ressaltou ainda na entrevista concedida à BBC: “É onipresente e encontrado no solo e no ar e até mesmo no nariz e no muco de pessoas saudáveis”.

A taxa de mortalidade está em torno de 50% dos infectados pelo fungo. Para o Dr. Akshay Nair, a questão dos recuperados da Covid-19 estarem enfrentando esta infecção grave pode estar relacionada ao uso de esteroides (corticoides) que são usados nos pacientes graves.

Em vários países, o uso de corticoides como dexametasona, prednisolona e tantos outros, está sendo empregado para diminuir a inflamação dos pulmões e do corpo, visando ajudar os pacientes de Covid-19 na recuperação.

O uso de corticoides provoca como efeito colateral a diminuição do sistema imune, o que poderia explicar os casos de infecção pelo “fungo negro”. Além disso, já se sabe que um dos sintomas do vírus da Covid-19 é elevar a taxa dos níveis de açúcar no sangue — mesmo em pacientes que não eram diabéticos anteriormente — o que poderia explicar a gravidades dos casos na Índia.

A teoria mais provável é que esse aumento de infecções por fungos está ocorrendo porque os pacientes recuperados estão saindo dos hospitais com a imunidade baixa, devido ao uso dos corticoides, além de taxas elevadas de açúcar no sangue.  

Amputação é necessária?

Infelizmente, muitos pacientes ignoram o surgimento dos primeiros sintomas nos olhos e, quando procuram ajuda, já estão com a visão embaçada ou não enxergam mais, sendo necessária a amputação para evitar que o fungo chegue até o cérebro — o que seria potencialmente fatal.

Para evitar agravamento, em muitos casos até mesmo o osso da mandíbula é retirado, para impedir que a infecção se espalhe pela boca.

Atualmente, apenas um medicamento é usando no tratamento da mucormicose após a retirada dos tecidos mortos — a Anfotericina B —que na Índia custa 3.500 rúpias (R$ 250) cada dose por aplicação intravenosa, durante 8 semanas.

Os sintomas da mucormicose pode ter início com nariz entupido e sangramento. Os olhos podem ficar inchados e as pálpebras terem aspecto de caídas. Em seguida, pode ocorrer visão embaçada ou turva e, posteriormente, cegueira. Manchas pretas na pele ao redor dos olhos e do nariz também são sinais de preocupação, já que indica morte dos tecidos.

A única forma possível de evitar a infecção seria monitorar corretamente os pacientes de Covid-19 para receberem apenas a dose estritamente necessária de corticoides — tanto durante a internação, como no tratamento em casa — evitando a queda do sistema imunológico.

“O diabetes diminui as defesas imunológicas do corpo, o coronavírus o agrava e, em seguida, os esteroides que ajudam a combater a Covid-19 agem como se estivéssemos jogando gasolina no fogo”, citou o Dr. Akshay Nair à BBC.

Jornal Ciência