As recentes mutações do coronavírus o tornam mais “perigoso”? Cientistas respondem

As pessoas estão sendo contaminadas com uma nova versão do vírus que vimos no início do ano. Mas, isso é preocupante?

de Redação Jornal Ciência 0

Nenhum patógeno na Terra está sendo monitorado mais de perto do que o novo coronavírus. Cientistas coletam, regularmente, e sequenciam geneticamente amostras do vírus para rastrear como ele está mudando.

Com o tempo, um desses monitoramentos revelou uma versão que se tornou mais prevalente do que as outras: uma cepa com a mutação chamada D614G.

De acordo com um novo estudo preliminar de pesquisadores do Hospital Metodista de Houston, nos EUA, essa cepa mutante foi responsável por quase todas as infecções de Covid-19 nos últimos meses, durante o segundo pico de infecções no Texas.

James Musser, autor da nova pesquisa, acha que isso significa que a cepa mutada – que contém o aminoácido glicina, ou G – é mais transmissível do que a original.

Sua pesquisa é a mais recente em uma série de estudos sugerindo que os coronavírus com a mutação D614G são mais contagiosos do que o coronavírus inicial. Mas muitos outros cientistas questionam essa conclusão.

Para a geneticista Emma Hodcroft, do projeto Nextstrain, que também estuda e sequencia os genes do coronavírus, o estudo de Musser fornece mais evidências do que a ciência já sabe sobre a mutação que tornou essa nova versão a mais comum.

Mas, apesar disso, a equipe de Emma rastreou as mudanças genéticas do coronavírus desde o início da pandemia, e ela afirma que ainda não identificou uma mutação que alterou de forma, significativa e preocupante, sobre o quão infeccioso ou letal o vírus é.

Uma forma dominante do vírus

Os geneticistas classificam a versão original do coronavírus como a “linhagem D”, enquanto as cepas com a mutação D614G são categorizadas como a “linhagem G”.

A linhagem G não surgiu até janeiro, disse Emma. Desde então, de acordo com seu colega da Nextstrain, Richard Neher, essa linhagem passou a dominar “quase todos os lugares nos Estados Unidos, Europa e América Latina”.

A mutação específica que diferencia essas cepas é uma troca no aminoácido marcado 614 – a parte do genoma do vírus que codifica a forma de sua proteína spike, que forma a “coroa”. É com essa “coroa” que o coronavírus usa para invadir nossas células, então, é possível que uma mutação nela tornasse mais fácil para o vírus infectar nossos corpos.

De fato, um estudo de junho descobriu que a cepa D614G é de 3 a 6 vezes mais eficaz na infecção de células humanas em laboratório do que a versão inicial. Outra pesquisa preliminar também sugeriu que a mutação aumenta a capacidade do vírus de invadir as células. É nisso que o pesquisador Musser também acredita.

Sua pesquisa – o maior estudo genético do vírus até hoje nos Estados Unidos – envolveu mais de 5.000 amostras de vírus de Houston coletadas entre março e julho.

A equipe classificou as amostras coletadas entre 5 de março e 11 de maio como parte da “primeira onda” de infecções da cidade. Nesse grupo, os dados mostraram que 82% continham a mutação D614G. Já no conjunto de amostras coletadas entre o final dessa primeira onda e 7 de julho, o número saltou para 99,9%.

Musser disse que isso mostra que a variante G “supera a variante D”. Mas pode haver outros motivos pelos quais a variante G se tornou mais comum. Para Emma, a explicação é: sorte.

Os dados mostram que a mutação D614G surgiu pouco antes de o coronavírus se espalhar para a Europa. Portanto, a linhagem G pode ter coincidentemente acabado sendo a versão que se espalhou para países da Europa e América do Norte. Muitos desses países não fizeram bloqueios por semanas após o surgimento dos primeiros casos, o que permitiu que essa versão do vírus se espalhasse.

“Uma coisa importante a se ter em mente é que a mutação G surgiu em janeiro de 2020, no início da pandemia. Ela se tornou a cepa que a maioria das pessoas contraiu”, disse Emma.

Mesmo que as variantes G do coronavírus sejam melhores para infectar novas células, isso ainda pode não necessariamente afetar a forma como o vírus se espalha de pessoa para pessoa.

“Esta cepa G pode ser interrompida das mesmas maneiras que a cepa D: máscaras, lavagem das mãos e distanciamento social”, pontua Emma.

A pesquisa de Musser também descreve outras trocas de aminoácidos observadas em diferentes sequências do genoma do coronavírus. Quanto mais um vírus se replica, maior a chance de que “um mutante vantajoso” surgir e dominar.  

Mas as pequenas mudanças observadas pela equipe de Musser ainda não são motivo para pânico, de acordo com Emma. “Todos os vírus acumulam mutações com o tempo. Isso é normal. É assim que os vírus funcionam”.

Fontes: Science Alert / Business Insider Foto: Reprodução / Science Alert

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