A história do pão envenenado assado em padaria que matou ao menos 100 pessoas na Colômbia

O padeiro sentiu um cheiro “estranho”, mas o dono da panificadora acreditou que ele estava de “ressaca” e mandou continuar o trabalho. Iniciava-se um evento trágico que jamais seria esquecido, onde as principais vítimas foram crianças, sendo este o quarto maior acidente por envenenamento no mundo

de Redação Jornal Ciência 0

O padeiro Joaquín Merchán amassava a farinha para uma fornada de pão na Panificadora Nutibara, localizada na cidade de Chiquinquirá, estado de Boyacá, Colômbia, quando sentiu um cheiro estranho no ar.

Jornal Ciência no seu WhatsApp

Clique aqui (61) 98302-6534, mande “olá” e salve nosso número nos seus contatos. Você receberá notícias do Jornal Ciência diretamente no seu celular.

Era como uma mistura de odores, algo semelhante com “alho”. Após ficar amassando a farinha, comunicou ao chefe, Aurélio Fajardo, que estava se sentindo tonto. O chefe, em tom de brincadeira, disse que a tonteira se chamava “ressaca”.

O padeiro, à época com 25 anos, aceitou a brincadeira do chefe e continuou fazendo seu trabalho: cortou, montou e colocou os pães no forno. Logo os clientes chegariam, especialmente crianças, que acordavam bem cedo para comprar pães para o café da manhã de suas famílias.

A cidade de Chiquinquirá tinha 28.000 habitantes à época dos fatos e, no dia do envenenamento, as crianças usavam ternos e roupas na cor preta, para simbolizar o fim do ano letivo nas escolas.

Como era costume, o padeiro Joaquín comeu 2 pães bem quentes, logo após sair a primeira fornada. Os trabalhadores noturnos chegavam em suas casas com os primeiros raios de sol e a igreja central da cidade tocava o sino para iniciar a primeira missa.

Este fatídico sábado de 25 de novembro de 1967 marcou o maior caso de envenenamento da Colômbia e um dos maiores do mundo. Minutos depois de comprarem e consumirem, várias pessoas da cidade começaram a perceber, em suas casas, que existia algo estranho no pão. As informações são do jornal colombiano El Tiempo.

Quando as mortes começaram, o El Tiempo foi um dos primeiros a registrar os números em sequência

Blanca Elena Romero, uma menina de 9 anos que tomava café da manhã com a família, percebeu que existia um sabor residual estranho, que nunca havia sentido antes nos pães da Panificadora Nutibara

Seu irmão Omar, de 10 anos, havia comprado 20 pães. Blanca Elena, ainda à mesa, reclamou dizendo que o pão tinha “gosto de veneno”, e levou uma bronca do pai que disse ser “pecado falar mal de comida”. Ele ordenou que Blanca comesse o pão e parasse de reclamar.

A menina não aceitou a ordem do pai e jogou o pão para as galinhas do quintal, que o devoraram em segundos. Minutos depois, todos os animais que comeram o pão estavam mortos.

Antes das 8h00 da manhã, a cidade que era famosa no país pela suposta aparição da Virgem Maria em 26 de dezembro de 1586, começou a registrar crianças morrendo em massa. Uma após outra, foram morrendo as crianças da cidade, até atingir o número de 100 vítimas, entre crianças em sua maioria e poucos adultos, todas envenenadas pelo pão.

O dia do envenenamento em Chiquinquirá

O jornal El Tiempo conversou com Omar, irmão da menina Blanca Elena que recusou comer o pão. Ele conta que comeu 2 pães, mas conseguiu sobreviver. Mesmo tendo passado quase 55 anos do ocorrido, a memória continua viva em sua cabeça como um trauma que jamais deixará de existir.

Omar chama de “dia apocalíptico” quando se recorda de ver crianças nas ruas caindo mortas. Ele conta que, naquele dia, por volta das 7h00 da manhã, estava acordado. Sendo um dos filhos mais velhos, ficava encarregado de abrir a barbearia do pai. Primeiro ele comprou o pão, depois abriu a loja. Nesse momento, viu uma mulher saindo na frente de sua casa carregando uma criança que parecia morta. A cena começou a se repetir sem parar nas casas e ruas próximas da Panificadora Nutibara.

Ele correu para avisar seu pai sobre a confusão nas ruas, mas ninguém sabia o motivo. Todos da família já haviam tomado café da manhã e comido o pão, incluindo o próprio Omar — menos sua irmã Blanca Elena que recusou a ordem de seu pai para comer. Foi neste momento que, após avisar o pai, começou acontecer dentro de sua casa aquilo que estava ocorrendo nas ruas: todos os integrantes da família começaram a passar mal.

Omar conta que sua irmã bebê, de apenas 9 meses, morreu rapidamente. Ela não comia pão no café da manhã, mas naquele dia, o pai deu um pedaço de pão que havia molhado na sopa — na Colômbia é cultural tomar sopa no café da manhã e em outras refeições. Este minúsculo pedaço de pão foi suficiente para matá-la.

As rádios comunicaram rapidamente o que estava acontecendo e teorizavam que uma doença estranha e misteriosa havia chegado na cidade. A imprensa nacional da Colômbia soube do fato e logo grandes jornais da capital Bogotá estavam na cidade para registrar o caso. Um deles foi o fotojornalista do El Tiempo, Carlos Caicedo, que registrou as fotos mais icônicas sobre o envenenamento de Chiquinquirá.

Começou um verdadeiro cenário de guerra e caos, que tomou conta da cidade. Os pais (os que tinham forças, mesmo envenenados pelo pão), corriam entre as ruas com seus filhos nos braços — alguns já falecidos — em busca de atendimento médico.

Os 3 médicos da cidade, a única enfermeira e 5 auxiliares de plantão, não davam conta de tanto desespero e vítimas. Através da imprensa, profissionais da saúde de cidades vizinhas correram para Chiquinquirá para tentar ajudar.

Ainda de acordo com o jornal El Tiempo, pelo menos 800 pessoas foram envenenadas. Mesmo hoje, quase 55 anos depois, o número total de pessoas envenenadas que conseguiram sobreviver e de vítimas fatais, não é claro e existem dúvidas.

Oficialmente, as autoridades contam como 100 o número de mortos, mas muitos acreditam que o número é bem maior, visto que a produção de pães não visava apenas a localidade e chegava até cidadelas mais afastados. Mais de 70 crianças foram mortas rapidamente. Acredita-se que, ao longo dos dias, outras pessoas morreram em consequência do veneno, mas não entraram para a lista oficial de óbitos.

Omar, não sentiu nada nas primeiras horas após ingerir os pães. À noite, aqueles pães envenenados começaram a danificar sua saúde e ele foi levado para outro hospital na cidade próxima, onde se encontravam 500 pessoas nos corredores em busca de socorro

Os enfermeiros tiveram que colocar pregos nas paredes para segurarem as bolsas de soro. Omar conta que seu irmão, Carlos Afonso, de apenas 11 anos, ficou conhecido como “o menino morto-vivo do sofá”, após o fotojornalista registrar a imagem (ver abaixo) que que se tornou símbolo da tragédia.

Carlos Afonso, de 11 anos, ficou conhecido como “o menino morto-vivo do sofá”. Foto: Reprodução / Carlos Caicedo

O menino não sentiu nenhum sintoma inicialmente após tomar café da manhã, mas no final da tarde começou a sentir sintomas alarmantes e apresentava aparência de desfalecido.

A foto foi tão impactante que foi capa do jornal El Tiempo em 26 de novembro de 1967. O pequeno Carlos Afonso parecia tão mal que profissionais da saúde o deram como morto e ele foi colocado junto com outros cadáveres que estavam amontoados no hospital da cidade de San Salvador.

Jornalistas que acompanharam seu caso desde sua casa, foram atrás do menino no hospital para saber notícias e o encontraram em meio aos corpos. Foi quando Carlos Afonso conseguiu dar minúsculos movimentos e reagir.

Seu irmão, Omar, disse que após ser retirado dos cadáveres, ele foi colocado em um sofá tomando medicamento na veia. Sua aparência era de uma criança falecida, mas ele estava vivo, mas não conseguia se mexer. Momento que ficou eternizado pela máquina fotográfica de Carlos Caicedo.

O que aconteceu com o padeiro?

O padeiro, que tinha o hábito de provar os pães e tomar seu café logo após a fornada sair, foi levado ao hospital, mas faleceu. Sua morte não ocorreu por ter comido os pães, mas pelo contato prolongado do veneno com sua pele enquanto amassava a farinha de trigo.

Os relatos do jornal El Tiempo dizem que todos os orifícios saíam sangue e houve tanto inchaço que seu corpo “estourou”. Cerca de 12 horas após ter contato com a farinha e ouvir que sua reclamação de tontura era “ressaca”, Joaquín Merchán estava morto.

O que fazer com tantos cadáveres?

No final do dia, os caixões da cidade acabaram e era hora de procurar em outras cidades. Eram tantas pessoas que os enterros precisaram ser feitos de forma coletiva. Não havia espaço para enterrá-los de forma separada e não havia tempo para as famílias velarem seus mortos.

As teorias para o mistério das mortes

Assim chegou em Chiquinquirá, o veneno que matou pelo menos 100 pessoas, era considerado incompreensível e um verdadeiro mistério. Ninguém sabia por que as crianças estavam morrendo, não havia explicação. Os médicos não sabiam o que fazer.

A princípio, acreditava-se que era a água. O sistema que fornecia água potável para a cidade estava fechado, mas quando as entidades de saúde começaram a associar o que as pessoas tinham comido, perceberam que a maioria só havia comido pão no café da manhã.

Lembram-se que o pai da família Romero queria obrigar sua filha Blanca a comer o pão, mesmo ela dizendo que tinha gosto de veneno? Ela não obedeceu e jogou para as galinhas, que morreram rapidamente. Foram as galinhas mortas que resolveram o grande mistério do que estava acontecendo.

Aurelio Fajardo, o dono da padaria, em total desespero ao entender o que havia acontecido. Foto: Reprodução / Carlos Caicedo

Quando o dono da padaria, Aurelio Fajardo, soube que as galinhas da família Romero morreram após comer o pão, ele saiu gritando pelas ruas “não comam pão, não comam o pão, ele está envenenado”.

A cidade estava um caos, em total descontrole, e os moradores tentaram linchá-lo, afirmando que ele era o grande culpado das mortes. Mas, a culpa não era dele e vários fatores ocorreram para o envenenamento.

O que de fato aconteceu?

As respostas para a tragédia estavam na própria padaria. Uma cascata de incidentes desencadeou a tragédia que marcou a Colômbia.

Os padeiros noturnos da Panificadora Nutibara, além do cheiro estranho, perceberam que a farinha com que preparavam o pão estava um pouco molhada. Eles não prestaram muita atenção aos detalhes, porque era algo que poderia acontecer. Achavam que era apena água e continuaram a produção de 6.000 pães.

Um dia antes dos padeiros noturnos iniciarem os trabalhos, o proprietário do Almacén Mi Granjita (loja distribuidora de farinha), Luis Alberto Rodríguez, teve uma discussão com o motorista que trouxe 24 garrafas de Folidol (um pesticida agrícola altamente tóxico), da capital Bogotá, junto com a farinha de trigo.

Ocorre que o motorista tinha um pequeno comércio e não viu nenhum problema trazer junto 24 garrafas para vendê-las. Mas, as caixas com Folidol foram viradas de cabeça para baixo — o motorista errou a posição das caixas, que deveriam estar para cima — e um dos potes quebrou no caminho, molhando a carga de farinha de trigo.

A briga do dono do comércio distribuidor de farinha com o motorista ocorreu quando percebeu que existiam símbolos de caveiras e advertências para o líquido perigoso, avisando sobre sua alta letalidade.

Ele não queria que nada fosse transportado junto com a farinha, mas não observou os detalhes que poderiam ter salvado vidas. O pesticida agrícola Folidol estava ao lado da farinha de trigo, da empresa Transportes Metoca.

Aparentemente, não havia nada visualmente errado, mas o agrotóxico molhou a farinha, e este era o motivo do “cheiro de alho” que o primeiro padeiro, Joaquín Merchán, sentiu ao manipular a massa. Apenas Joaquín sentiu-se mal durante o preparo e o “cheiro de alho”. Por isso, não foi levado à sério, e os outros padeiros ignoraram seus comentários.

Dos 30 pacotes de farinha, 10 pacotes absorveram o veneno derramado durante o transporte. Visualmente, os pacotes de farinha não pareciam molhados. À época, o motorista Eresmildo González, assegurou ao jornal El Tiempo que sentiu um forte odor, mas acreditou que a gasolina do caminhão estava derramando, já que era um veículo velho.

O motorista foi preso, mas logo foi liberado. Farjado, dono da Panificadora Nutibara, não foi preso, mas teve que deixar a cidade acusado de ser o culpado pelas 100 mortes. Vendeu sua casa por um valor quase “de graça” e nunca mais trabalhou com panificação, mudando de estado.

Como está a cidade quase 55 anos depois do envenenamento?

Chiquinquirá nunca mais foi a mesma. Mas, com o passar dos anos, a tragédia foi caindo no esquecimento e apenas as famílias das vítimas guardam suas memórias de dor, terror e luto eterno por seus parentes e filhos.

Vários moradores que viveram na época do acidente se mudaram para outras cidades ou países. A família Romero deixou tudo para trás e foi embora. Tomás Alfonso, pai de Omar, também sofreu com as lesões do veneno.

Seu estado foi tão grave que chegou a receber a extrema-unção do padre, mas conseguiu ser salvo e foi orientado pelos médicos a procurar uma cidade mais quente, devido aos problemas de saúde adquiridos. Sua família se mudou para Cali, uma cidade com temperatura mais alta.

Omar Romero, ainda em entrevista ao jornal El Tiempo, salienta que a maturidade e os anos o fizeram enxergar de forma diferente o ocorrido: “Não se qualifica mais quem poderia ter sido culpado, como o fez, por que o fez, se houve culpa, se não houve culpa”, diz.

Mas, Omar salienta que lamenta o fato da cidade de Chiquinquirá não ter um monumento às vítimas. Segundo ele, o nome “tragédia”, usada para rotular o que houve, demonstra bem o que aconteceu, mas os moradores sentem que isso não teve importância e foi “esquecido” pelo país que parece não ter entendido a gravidade.

Apenas poucas pessoas se lembram do ocorrido e, geralmente, citam como algo longínquo, quase folclórico, como se fora algo distante da realidade atual de suas vidas.

A famosa Panificadora Nutibara, hoje, é apenas uma casa comum, com aparência igual a de tantas outras, embora manteve sua estrutura principal e funcione com outro tipo de comércio. Quem passa ali, jamais pensará que foi o local onde uma série de descuidos fez milhares de pães serem assados com veneno, resultando na morte de, no mínimo, 100 pessoas. Algumas pessoas traumatizadas, jamais comeram pão novamente.

O que é Folidol?

Folidol é composto pelo veneno chamado paratião ou parationa — um pesticida agrícola da classe dos organofosforados, usado de forma potente contra insetos e da família dos ácaros. Apesar de ser usado em plantas da indústria agrícola, é considerado extremamente tóxico quando inalado seus gases ou absorvido pela pele.

Parationa, molécula do pesticida Folidol

Pode causar doenças físicas e mentais. Entre os pesticidas existentes, é considerado extremamente perigoso por causar sintomas clássicos de envenenamento.

É a substância que mais causa mortes “acidentes” entre a classe dos pesticidas organofosforados. Este caso é o maior acidente trágico de envenenamento da Colômbia e está entre as 4 maiores a nível mundial.

Em janeiro de 2015, alimentos contaminados com o mesmo pesticida agrícola causou intoxicação de pelo menos 48 pessoas na Bolívia. Em 1º de setembro de 2016, a ANVISA proibiu o uso da parationa metílica em todo o território brasileiro, alegando que a substância causa mutações, danos ao sistema reprodutor, é muito mais perigosa ao ser humano do que foi demonstrado em testes com animais de laboratório e possui evidências de causar distúrbios hormonais.

A substância teve sua retirada programada do mercado brasileiro segundo critérios da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 56/2015. A norma informava que, a partir de 1º de junho de 2016, nenhum produto contendo parationa metílica poderia ser vendido em território nacional.

©Todos os direitos reservados. Proibida a cópia e reprodução sem autorização por escrito da PLUG Network.

Fonte(s): El Tiempo / La República / Caracol TV / Bahia Notícias / FioCruz Imagens: Reprodução / La República / Caracol TV via fotógrafo Carlos Caicero / El Tiempo por Juan Pablo Rueda

Jornal Ciência