O que a “peste” de Atenas da Grécia Antiga pode nos ensinar sobre o coronavírus de hoje?

de Redação Jornal Ciência 0

O coronavírus está nos mostrando a fragilidade da existência humana. A palavra “pandemia” se tornou parte de nosso vocabulário. Mas o que poderemos aprender com as epidemias passadas? Epidemia e pandemia são palavras de origem grega. E é precisamente sobre a chamada Peste Grega que assolou Atenas vinda da Etiópia em 430 a.C. que escreveu recentemente Chris Mackie, da Universidade La Trobe, na Austrália.

Em um artigo publicado no portal The Conversation, o estudioso do mundo clássico refere que os gregos antigos se interessavam muito pelas doenças, não só de um ponto de vista meramente médico mas também como metáfora da conduta humana.

O que os gregos chamavam de “peste” aparece em algumas passagens memoráveis da literatura grega, como a “Ilíada” de Homero, onde nos surge Apolo, o deus da peste – um destruidor e curandeiro – que castiga os gregos enviando pestilências. Cerca de 270 anos após a “Ilíada”, a peste é o tema central de duas grandes obras clássicas atenienses – “Édipo Rei”, de Sófocles, e o livro II da obra de Tucídides “História da Guerra do Peloponeso”, praticamente contemporâneas. 

As páginas que Tucídides escreveu sobre a “peste” que atingiu Atenas em 430 a.C. pertencem aos grandes anais da literatura grega clássica. “É notável a forma como ele descreve a resposta social à epidemia”, salientou o estudioso.

Epidemia

A descrição da “peste” em Atenas segue-se imediatamente ao famoso relato de Tucídides “A Oração Fúnebre de Péricles” (este morreu da doença em 429 a.C., enquanto Tucídides foi contagiado, mas sobreviveu).

Tucídides descreve os estágios iniciais da epidemia, sua propagação nas regiões próximas de Atenas, a infecção de toda uma cidade e as lutas dos médicos para lidar com ela, bem como a alta taxa de mortalidade, inclusive entre os próprios médicos. Nada parecia amenizar a crise – nem conhecimentos médicos ou outras sabedorias, nem orações ou oráculos. De fato, “no final, as pessoas estavam tão manietadas por seus sofrimentos que não prestavam mais atenção a tais coisas”, escreveu Tucídides.

Sintomas mortais

Ele descreve os sintomas com algum detalhe – a sensação de ardor, dores de estômago e vômitos, o desejo de estar totalmente nu, insônia e inquietude. Na etapa seguinte da doença, após sete ou oito dias, aqueles que tivessem sobrevivido ao primeiro embate da infecção, viam “a pestilência descer para as entranhas e outras partes do corpo – genitais, dedos das mãos e dos pés”. Muitos cegariam, também.

O sofrimento ia para além da capacidade da natureza humana de o suportar e tanto faleciam os de constituição forte como os mais frágeis. Tucídides assinalou que o mais terrível era o desespero em que as pessoas caíam quando se davam conta de que tinham apanhado a doença, que na sua ótica reduzia os seus poderes de resistência.

Destruição dos valores

Tucídides também relatou como a epidemia provocou uma quebra dos valores tradicionais, onde já não existia medo dos deuses ou do homem, pois quanto às ofensas contra a lei humana, ninguém esperava viver o suficiente para ser julgado e punido: em vez disso, todos sentiam que uma sentença muito mais pesada já tinha sido proferida: a doença.

O primeiro surto durou dois anos, seguindo-se mais tarde uma segunda vaga, embora com menos virulência, escreve Mackie.

Um terço dos atenienses terá morrido da doença, que continua por determinar, embora as hipóteses mais aceites sejam tifo ou varíola, segundo o estudioso australiano. “Tucídides nos oferece uma narrativa de uma pestilência que é diferente, em todas os sintomas, daquela que enfrentamos.”

Mas as lições que aprenderemos com a crise do coronavírus virão das nossas próprias experiências com ele, conclui Cris Mackie.

Fonte: Sputnik News Foto: MSN 

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