Mistério por trás do famoso esqueleto “alienígena” finalmente foi resolvido. Confira reportagem detalhada!

de Merelyn Cerqueira 0

Conhecido como o Esqueleto do Atacama, ou Ata, em homenagem ao deserto chileno onde foi encontrado, a misteriosa ossada foi associada a um alienígena.

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Com apenas 10 pares de costelas – o ser humano normal possui apenas 12 – e 15 centímetros de comprimento, Ata foi encontrada em 2003, quando um homem que caminhava próximo a uma igreja na região, o viu.

O suposto “alienígena” foi vendido no mercado ilegal e adquirido por um colecionador que atualmente vive na Espanha, segundo informações do jornal The Washington Post.

O problema, no entanto, é que a origem de Ata permaneceu um mistério desde então, de modo que sua aparência chamou atenção de ufólogos em todo o mundo, que suspeitavam que seus ossos poderiam representar algo notável.

Mas isso até um estudo publicado recentemente na revista Genome Research, que identificou a ossada calcificada como de origem humana.

“Fomos capazes de olhar para todas as mutações que estavam neste indivíduo“, disse o geneticista da Universidade Stanford, Garry Nolan, autor do estudo. “E todo mundo nasce com mutações. Essa pessoa simplesmente se superou”.

Em 2013, Nolan revelou um esboço do genoma de Ata, que, apesar de ter lacunas, confirmou a existência de DNA humano. O novo trabalho, por outro lado, apresenta todo o genoma, incluindo mutações incomuns.

A história de Ata começou no deserto do Atacama, ao norte do Chile, uma das regiões mais secas do mundo.

Ali é onde a NASA testa os robôs de Marte, conduzindo-os através de uma aparência próxima do que seria o ressecado terreno de Marte.

O céu ali raramente apresenta nuvens, o que faz da região um ótimo ponto para a observação de estrelas. Além disso, é o futuro lar do maior telescópio óptico do mundo, o European Extremely Large Telescope, cujo a construção começou no ano passado.

Mas, foi nesta seca e remota região, perto de uma igreja em uma aldeia abandonada, que um homem supostamente encontrou os restos de Ata em 2003. O corpo foi vendido por um colecionador e mantido em um local seguro na Espanha. Foi somente durante uma conferência sobre ufologia em 2009, que Steven Greer, um médico aposentado que defende a ideia de que os governos devem ser mais abertos com a sociedade em relação aos avistamentos alienígenas ou objetos não identificados, conseguiu coletar a primeira amostra de DNA do corpo. 

Depois de persuadir o colecionador, Greer conseguiu extrair uma pequena parte de medula óssea de uma de suas costelas. Quando o médico aposentado segurou Ata em suas mãos, ficou maravilhado com o tamanho. “Ela era tão pequena que seu esqueleto se encaixava na palma da minha mão”, disse.

Greer chegou a coproduzir um documentário, chamado “Sirius”, em que revela a pesquisa genética inicial de Nolan, feita em parceria com cientistas de vários campos, incluindo especialistas em DNA antigo.

Eles descobriram que, embora Ata estivesse dessecada pelo tempo super-seco do Atacama, ela não é uma múmia antiga. Isso porque, ainda que ao longo dos séculos o DNA se quebre em fragmentos, o material genético de seu corpo era muito completo para ser mais velho do que algumas décadas.

Nolan convidou ainda Ralph Lachman, um radiologista pediátrico do Hospital Infantil Lucile Packard, de Stanford, para analisar os raios-X do esqueleto. Segundo ele, o médico era referência mundial em questões de desordens ósseas.

Assim, ele avaliou, com base em características como o crescimento em torno das articulações dos ossos, por exemplo, que o esqueleto parecia ser tão desenvolvido quanto o de uma criança de 6 anos de idade.

No entanto, Lachman nunca argumentou que Ata morreu durante a infância. “Ele disse apenas que os ossos pareciam ter 6 anos de idade”, disse Nolan.

Os cientistas também compararam o genoma de Ata com os de um chimpanzé e macaco, mas logo descartaram uma origem não humana. De fato, seus ancestrais eram sul-americanos e, provavelmente, chilenos. Também foi confirmado que o esqueleto pertenceu a uma pessoa do sexo feminino.

O estudo, usou um gigante banco de dados chamado de “correlações fenotípicas-genéticas“, que aponta que o fenótipo de um indivíduo é a coleção de suas características, incluindo altura, cor dos olhos e até mesmo a umidade da cera do ouvido.

Os genes, assim como o ambiente, influenciam nesse fenótipo. Assim, entre seus bilhões de nucleotídeos, que são os “tijolos” que compõem os genes, os autores identificaram 3 milhões de variações.

Segundo Nolan, a enorme base de dados é semelhante a um conceito de uma rede social sendo minada por uma empresa de pesquisas. Se ela coleta o suficiente de “likes” e “deslikes”, pode prever as preferências de uma pessoa.

Da mesma forma acontece com os genes, que podem prever quais indivíduos terão fenótipos semelhantes. No caso de Ata, seus genes correspondiam a indivíduos com distúrbios ósseos.

O que era excepcional, para os cientistas, era onde os genes estavam concentrados. “Este é um fenótipo humano super-raro”, disse a coautora Sanchita Bhattacharya, pesquisadora em bioinformática da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA). “Ata é uma das pessoas mais raras que já observamos, com apenas 15 centímetros e uma idade óssea avançada”.

Segundo o professor de biomedicina Atul Butte, da Universidade da Califórnia, que criou o banco de dados, Ata tinha 64 mutações incomuns ligadas ao seu sistema esquelético. Entre essas, eles encontraram duas novas variantes que foram incorporadas a literatura médica. Elas codificavam a abundância de uma proteína estrutural – um tipo de colágeno –, que é extremamente importante para os ossos.

“Dadas múltiplas mutações identificadas neste espécime, pode-se especular que não sobreviveu por muito tempo, disse Bhattacharya, “mesmo que ela tenha nascido viva”.

Segundo ele, é possível especular que ela tenha sido abandonada na igreja ainda bebê por uma mãe perturbada. E, da forma como foi encontrada deitada, com braços para o lado, tenha sido esquecida ali.

“Agora sabemos que há algo nesse conjunto específico de genes que leva ao rápido crescimento ósseo”, disse ele, acrescentando que usará o conhecimento adquirido para influenciar células-tronco e cartilagem, curando ossos mais rapidamente e corretamente.

Nolan, por outro lado, acredita que a história deve terminar onde tudo começou. “Talvez ela precise ser devolvida ao Chile, para que receba o enterro que merece”, ressaltando que possui respeito aos restos mortais de um indivíduo.

Fonte: Science Alert / The Washington Post Fotos: Reprodução / Science Alert

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