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Melatonina: Quantas gotas tomar? Para que serve? As controvérsias sobre o hormônio do sono

O suplemento mais pesquisado do momento é a famosa melatonina — hormônio do sono naturalmente produzido pelo corpo. Entenda por que está sendo consumida, sua verdadeira função e a polêmica de fabricantes que indicam doses acima do que a ANVISA recomenda

de Redação Jornal Ciência 0

Certamente você já ouviu falar sobre a melatonina nos últimos anos, talvez mais especificamente há poucos meses após a ANVISA liberá-la como suplemento, encontrado em todas as farmácias, não somente as de manipulação, como anteriormente.

A melatonina é o famoso hormônio do sono, produzido naturalmente pelo nosso corpo na chamada glândula pineal, localizada no cérebro. A produção começa assim que o sol se põe.

Quando a luz natural diminui, nosso organismo entende que é hora de desacelerar e iniciar, lentamente, o processo que nos fará dormir. Para isso, o cérebro fabrica a melatonina que, entre várias outras funções no corpo, consegue induzir o início do sono.

O maior pico de liberação da melatonina ocorre algumas horas após anoitecer, nos deixando sonolentos. Respeitar este início é importante, para permitir a atuação da melatonina, ajudando a acordar mais disposto logo cedo.

Sua produção tem pico entre às 23h00 e 03h00 da manhã. Após este pico, os níveis caem rapidamente para que o corpo possa se preparar para acordar assim que o sol nascer.

Entre 09h00 e 10h00, os níveis de melatonina no corpo são baixíssimos e assim permanecem até que chegue o fim da tarde, reiniciando o ciclo.

Mas, em um mundo moderno, repleto de aparelhos eletrônicos, luz artificial, celulares, computadores e diversas outras fontes de luminosidade, o estímulo de luz em nossos olhos inibe a produção de melatonina para horários cada vez mais tardes — prejudicando à saúde.

O hormônio melatonina pode ser fabricado diretamente em indústrias farmacêuticas de forma sintética, porém idêntica ao hormônio biológico, ou extraído de animais.

Durante anos, esteve à venda somente em farmácias de manipulação no Brasil, sendo proibida a comercialização em farmácias e drogarias. Apesar da necessidade de receita médica, era possível comprar livremente em quase todas as farmácias magistrais, inclusive pela internet.

Nos EUA, a melatonina sempre foi de fácil acesso aos pacientes, já que o país, através da Food and Drug Administration (FDA) sempre classificou o hormônio como suplemento alimentar e não um medicamento — o que fazia muitos brasileiros trazer o produto para o Brasil em viagens aos EUA ou comprá-lo on-line.

A ANVISA decidiu liberar a melatonina como suplemento alimentar e permitir a venda em farmácias e drogarias em outubro de 2021, destinados apenas para maiores de 19 anos com máxima dose diária de 0,21 mg.

Desde então, uma avalanche de marcas e produtos diversos, como pílulas sublinguais, cápsulas e em gotas, tomaram conta dos estabelecimentos nos quatro cantos do Brasil.

Na União Europeia, devido aos abusos dos fabricantes, uso exagerado e alegações falsas publicitárias, resolveu tratar a melatonina como droga (medicamento), exigindo que estudos científicos de segurança e eficácia fossem apresentados, proibindo que seja comercializada sem prescrição médica.

Para que serve a melatonina?

Originalmente, o suplemento sempre foi usado em casos de jet lag — casos em que o sono é desregulado em uma viagem internacional, por exemplo, com fusos horários drásticos.

Após um certo tempo, começou a ser usado para pessoas que possuem distúrbios no ritmo circadiano — que costumam trocar, naturalmente, o dia pela noite — e em casos muito específicos de insônia.

O hormônio consegue apenas induzir o sono, mas não o manter. Isso significa que a pessoa que tem insônia por problemas comportamentais, voltarão a ter insônia quanto deixarem de tomar melatonina.

Apesar de ser um suplemento seguro, o uso incorreto pode ter sérias consequências à saúde e deve ser indicado corretamente e não deve ser visto como um “medicamento para dormir”, é o que afirma especialistas.

A maior parte dos casos de insônia está relacionado com o comportamento do paciente. Mudanças de hábitos, através da chamada “higiene do sono” com acompanhamento médico, pode ajudar a ter novamente um ritmo saudável na hora de dormir.

Melatonina: Quantas gotas tomar?

O corpo humano produz 0,2 miligramas diários de melatonina para que vários sistemas funcionem em plenitude no organismo. Essa dosagem inclui a indução do sono. Este é o motivo que levou a ANVISA a recomendar exatamente esta dosagem: 0,2 miligramas.

Nos EUA, ela não é completamente regulamentada, podendo achar cápsulas de 1 mg a 10 mg — excedendo absurdamente a dose recomendada pela ANVISA.

Em praticamente todas as embalagens em gotas, vendidas no Brasil, vemos a informação de que 1 gota = 0,21 mg é o mesmo que 1 cápsula = 210 mcg. Devendo ser tomada de 1 a 2 horas antes de deitar-se.

Ambas (cápsulas ou a versão líquida) possuem a mesma concentração, apenas mudando a forma de expressar o sistema de unidade: miligrama ou micrograma.

A dose recomendada pela ANVISA é 1 gota (0,21mg) ou 1 comprimido de 210 mcg (micrograma). Ocorre que muitos fabricantes indicam a dosagem bem acima disso, com alguns citando 20 gotas na própria embalagem — ver foto abaixo.

Apesar da recomendação da ANVISA, algumas marcas indicam doses acima da recomendada (imagem à direita, 20 gotas), outras recomendam apenas o que determina a ANVISA, ou seja, 0,2 mg que equivale a 1 gota (imagem à esquerda). Foto: Reprodução / Jornal Ciência

Muitos médicos receitam uma dose “padrão” de 10 gotas (2,1 mg) a 15 gotas (3,15 mg). Isso é bem acima do recomendado pela ANVISA, mas com respaldo médico e acompanhamento, a indicação pode ser feita.

A dose de melatonina que consegue imitar ou simular a produção natural do corpo na indução do sono é entre 0,1 mg e 0,5 mg.

Na maioria dos casos, a dose de 1 mg é suficiente para surtir efeito, o que é equivalente a 5 gotas de melatonina, mas em alguns a dose precisa ser ajustada para não causar efeito “rebote”, deixando o paciente extremamente sonolento pela manhã.

Existem efeitos colaterais da melatonina?

O uso de melatonina, em diversos estudos, está associado com casos de depressão, pressão arterial mais baixa que o normal, sonolência excessiva, confusão, estado de desorientação, irritabilidade, cólicas estomacais, náuseas, tonturas e dores de cabeça.

Segundo o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa (NCCIH) e Instituto Nacional de Saúde, ambos dos EUA, o uso da melatonina em casos de trabalhadores noturnos que têm problemas em adormecer pela manhã, pessoas com insônia ou em casos de jet leg, parece seguro.

Mas, os dois órgãos ressaltam que a segurança do uso do suplemento a longo prazo nunca foi avaliada e é desconhecida sobre riscos potenciais futuros.

Por que a melatonina causa polêmica?

Apesar da liberação pela ANVISA, médicos salientam que o hormônio não pode ser dosado em exames de laboratório, sendo assim, não há como dizer com exatidão se uma pessoa precisa repor melatonina e qual a dosagem, de acordo com o Instituto do Sono de São Paulo.

À revista Veja Saúde, o Dr. Caio Bonadio, psiquiatra do Vigilantes do Sono, disse que 35% das pessoas com insônia usam medicamentos ou suplementos como a melatonina, sem acompanhamento de um médico.

Como existem 50 doenças do sono clinicamente catalogadas, seria necessário exames extensivos e investigativos para compreender o motivo da insônia de um paciente e não somente recomendar o uso aleatório da melatonina.

Fonte(s): Hospital Albert Einstein / ANVISA / CNN / MDSaúde Imagem de Capa: Reprodução / YouTube Foto(s): Reprodução / Veja Saúde

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