Muitas pessoas se submetem a tratamentos fitoterápicos – feitos com medicamentos à base de ervas e plantas medicinais – com a suposição de que, mesmo que não funcionem, não causarão qualquer dano ao organismo.
Contudo, um estudo realizado por cientistas da Stony Brook University, de Nova York, e Baylor College of Medicine, no Texas, sugeriu que esse nem sempre é o caso.
Na verdade, um dos remédios mais comumente utilizados, feito à base de uma erva chamada Aristolochia, mostrou-se capaz de causar insuficiência renal e câncer em cerca de 5-10% da população, que têm uma susceptibilidade genética a um dos seus compostos.
A Aristolochia é um gênero de planta que tem sido utilizado por mais de 2.500 anos como cura para diversas condições. Segundo a medicina alternativa, ela serve para tratar picadas de cobra, ferimentos na cabeça, insônia, constipação, problemas uterinos, e edemas generalizados.
De acordo com os pesquisadores Arthur Grollman de Stony Brook University, e Donald Marcus da Baylor College, essa erva também é conhecida por conter uma toxina potencialmente letal, chamada de ácido aristolóquico, capaz de desencadear efeitos negativos nos rins.
Essa associação foi feita pela primeira vez nos anos 90, quando um grupo de mulheres dinamarquesas havia se submetido a um tratamento feito à base de plantas medicinais (incluindo a Aristolochia) e acabaram desenvolvendo canceres na via urinária.
Uma década depois, pesquisadores também observaram que um número elevado de pessoas na região da Península Balcânica estava ingerindo pães contaminados com sementes de uma das espécies dessa planta, e acabou desenvolvendo condições semelhantes.
A partir daí, conforme relatado pela Science Alert, foram realizados extensos estudos moleculares e populacionais.
Eles revelaram que cerca de 5-10% das pessoas no mundo têm uma certa suscetibilidade genética para o ácido aristolóquico – e para elas, suplementos feito à base desse ácido podem danificar os rins e provocar o surgimento de câncer.
Contudo, mesmo para aqueles que não são geneticamente vulneráveis à composição da Aristolochia, ela é capaz de “provocar mais mutações celulares do que dois dos maiores agentes cancerígenos atuais: o cigarro e os raios UV”, de acordo com dois estudos realizados em 2013 e publicados pela The Scientist.
Agora, os resultados obtidos por Grollman e Marcus chamam atenção para a existência de regulamentações mais rígidas sobre a medicina botânica (ou fitoterápica).
“A história do uso de ervas mostra que nem todas elas são benignas e, por vezes, são mortais”, escrevem eles na revista EMBO Reports.
“Além disso, não podemos saber se todos os medicamentos à base de plantas são seguros, porque apenas alguns foram testados sistematicamente sobre sua toxicidade ou carcinogenicidade”.
Ainda, dados divulgados em março pela ABC News mostraram que, ao longo dos últimos cinco anos, suplementos de ervas foram associados a pelo menos seis transplantes de órgãos na Austrália, com uma ligação, ainda a ser identificada, entre suplementos de chá verde e a insuficiência hepática.
De acordo com Grollman e Marcus, tudo se resume a uma falta de pesquisa científica sobre o tema. Em outras palavras, muitas pessoas tomam medicamentos cujas segurança e eficácia não foram sistematicamente testadas.
A razão para que isso aconteça se dá pelo fato de que podem levar anos para que esse tipo de ligação seja comprovado, além da inexistência de regulamentações por parte de órgãos públicos, que impedem a criação de uma suposição geral.
“Em matéria de saúde pública, o conhecimento empírico, baseado em tradições, não deve ser autorizado como ‘substituto’ do método científico”, escrevem eles.
Fonte: Science Alert Fotos: Reprodução / Science Alert