Temos um plano se os alienígenas chegarem?

de Gustavo Teixera 0

O filme de ficção científica “A Chegada”, que estreou nos cinemas na semana passada, coloca questões sobre como os seres humanos podem fazer contato e se comunicar com alienígenas.

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Mas o que aconteceria se estabelecêssemos contato com uma civilização alienígena inteligente? Se eles chegassem, teríamos um plano? Segundo o astrônomo Seth Shostak, do SETI Institute, uma organização sem fins lucrativos dedicada à pesquisa científica, educação e divulgação em Mountain View, na Califórnia, a resposta é um pouco complicada. “Existem alguns protocolos, mas eu acho que é um nome infeliz, e isso os faz parecer mais importantes do que são”, disse Shostak ao site Live Science.

Durante os anos 1990, Shostak presidiu um comitê da Academia Internacional de Astronáutica (IAA) que preparou uma versão revisada dos “protocolos de pós-detecção” para pesquisadores que observam possíveis transmissões alienígenas usando radiotelescópios que ficaram conhecidos pela sigla SETI que significa Search for Extraterrestrial Intelligence, ou traduzindo para o português “Busca de Inteligência Extraterrestre”.

Os protocolos foram elaborados pela primeira vez na década de 1980 para ajudar os cientistas dos Estados Unidos e da União Soviética a compartilharem informações sobre qualquer sinal de SETI. Mas segundo Shostak, os protocolos de pós-detecção são diretrizes para governos e cientistas, ao invés de um plano de ação global para lidar com o contato extraterrestre.

“Eles recomendam que, se você pegar um sinal, confira, diga às autoridades e não transmita nenhuma resposta sem consulta internacional, o que quer que isso signifique. Mas isso é tudo o que os protocolos dizem e eles não têm força de lei. As Nações Unidas tomaram uma cópia dos protocolos e a colocou em uma gaveta de arquivos em algum lugar, e isso é tão oficial que eles nunca pegaram tal protocolo”, comenta Shostak.

“Homens de Preto”

No filme “A Chegada”, as naves espaciais aterrissam em várias cidades ao redor do mundo, e um linguista, profissional que estuda linguagens e falas, e um físico são recrutados como parte de um esforço internacional de comunicação com os extraterrestres para descobrir por que eles estão aqui.

Na vida real, além do protocolo que dita que os investigadores devem compartilhar notícias sobre SETI e sinais com outros astrônomos pelo mundo todo, Shostak disse que não está ciente nem conhece nenhum plano do governo ou procedimentos estabelecidos no caso de um contato extraterreno.

E parece que não existem realmente “Homens em Preto” ou pesquisadores do governo sobre ufologia, como nos filmes de ficção científica e comédia “MIB – Homens de Preto” estrelados por Will Smith e Tommy Lee Jones. “Se o governo pudesse sustentar os ‘Homens de Preto’, eles poderiam se dar ao luxo de patrocinar a SETI”, brinca Shostak.

Mas segundo Shostak, o governo dos EUA não demonstrou nenhum interesse na pesquisa SETI até agora: “Não é um programa do governo, então eles não têm nada a ver com isso, eu adoraria ver algum interesse deles, mas eu nunca tive algum apoio”, acrescentou. Depois de um “alarme falso” do SETI, que acabou por ser um sinal de um satélite de pesquisa europeu, a única resposta que o programa conseguiu foi a de jornalistas.

“Em 1997, conseguimos um sinal que parecia ser bastante promissor durante a maior parte do dia. Nós pensamos que era possivelmente extraterrestre. Eu fiquei esperando que os ‘Homens de Preto’ aparecessem, ou o Pentágono ou a Casa Branca ligar, mas eles não ligaram. Os únicos que ligaram foram do jornal The New York Times”, comenta Shostak.

Encontros próximos

Em uma revisão e especulação sobre extraterrestres publicada como: “Xenology: An Introduction to the Scientific Study of Extraterrestrial Life, Intelligence and Civilization”, de 1979, o autor e cientista Robert Freitas descreveu uma suposta instrução militar em Washington, capital dos Estados Unidos, em 1950, que apresentou potenciais respostas militares dos EUA em caso de contato alienígena.

O suposto plano militar, que se tornou conhecido como “Sete Fases para o Contato”, foi relatado pela primeira vez em um livro de 1967 sobre UFO pelo radialista e pesquisador ufologista norte-americano Frank Edwards. Mas segundo Shostak, não existe nenhum sinal de plano de ação extraterrestre de agências governamentais americanas ou militares.

“Até onde eu sei, não há nada, e eu acho que eu teria ouvido algo por causa dos alarmes falsos”, pontua Shostak. Embora a detecção de um sinal alienígena seria diferente de encontrar as naves espaciais na Terra, Shostak não acha que os protocolos vão desempenhar um papel importante na forma como respondemos.

“Algumas pessoas me perguntaram numa conferência na semana passada: ‘Que plano os militares teriam para lidar com alienígenas, caso chegassem?’ E eu disse: ‘Eu não sei. Mas, ao meu conhecimento, eles não têm um plano”, comenta Shostak. Shostak observou que qualquer alienígena que pudesse viajar para a Terra em uma espaçonave precisaria ser séculos mais avançado tecnologicamente do que os humanos são agora, por isso é quase impossível imaginar as consequências do contato entre as espécies, muito menos desenvolver um plano para lidar com eles. “Seria como se os Neandertais tivessem um plano caso a Força Aérea dos EUA aparecesse”, disse ele.

Planeta Terra chamando

Embora os alienígenas no filme “A Chegada” viajassem para a Terra em espaçonaves mais rápidas do que a luz e estivessem prontos para conversar, Shostak disse que o cenário mais provável de um “primeiro contato” seria a detecção de um sinal de rádio SETI, de uma fonte a centenas ou milhares de anos-luz de distância.

Isso significa que pode levar séculos para que os alienígenas recebam qualquer resposta transmitida da Terra, segundo Shostak. E se extraterrestres fizerem contato, o que os seres humanos devem responder? Alguns cientistas, incluindo o físico britânico Stephen Hawking, expressam preocupação com os programas do tipo SETI, projetados para transmitir mensagens da Terra a qualquer alienígena que possa estar ouvindo. Hawking alertou sobre a ameaça potencial de extraterrestres desconhecidos e suas motivações.

“Estive em várias conferências onde as pessoas discutem se devemos dizer aos alienígenas as coisas ruins sobre a humanidade, ou apenas as coisas boas. Mas eu acho que isso tem um saldo negativo. Para mim, isso seria como os povos indígenas da Austrália vendo a chegada do navegador James Cook e dizendo: ‘Nós vamos ter muitas conferências para discutir o que nós vamos conversar com esses caras e que linguagem vamos usar’, mas isso não importa”, aponta Shostak

Shostak salientou que os seres humanos já estão transmitindo notícias para o espaço por décadas, na forma de sinais de rádio, e por isso é provavelmente muito tarde para manter a calma.

“Esses sinais foram para o espaço desde a Segunda Guerra Mundial, então já lhes dissemos que estamos aqui”, finalizou.

[ Live Science ] [ Foto: Reprodução / Internet ] 

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