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Imagens de satélite mostram mudanças na distribuição da água na Terra

de Julia Moretto 0

Lagos, rios e zonas úmidas estão em profunda mudança devido ao uso dos seres humanos. Recentemente, pesquisadores mapearam milhões de imagens de satélite para documentar a história da água da superfície da Terra desde três décadas atrás.

 

O engenheiro agrônomo Jean-Francois Pekel e seus colegas criaram uma espécie de máquina do tempo virtual, mostrando mudanças ocorridas nas águas e fornecendo uma base para traçar o futuro do mundo aquático. Para alcançar esse objetivo, Pekel e colegas usaram mais de 3 milhões de imagens dos lagos, terras úmidas e rios da Terra, através do satélite LANDSAT no período entre 1984 e 2015. Em seguida, eles analisaram o oceano de dados com a plataforma de computação em nuvem do Google Earth Engine.

 

O resultado é tão visualmente impressionante quanto cientificamente valioso. “Isto nos permite viajar no tempo e fazer medições precisas das mudanças do nosso ambiente“, diz Pekel, do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia em Ispra, Itália. “A medição do passado contribui para a nossa compreensão das consequências a longo prazo de nossas escolhas econômicas e sociais passadas, contribuindo para decisões de gestão no futuro“, conclui.

 

A imagem revela que, desde 1984, as águas superficiais desapareceram de uma área de quase 90.000 quilômetros quadrados que se estende principalmente pelo Oriente Médio e Ásia Central. Mais de 70% de toda a perda de água ocorreu em cinco países contíguos: Iraque, Irã, Afeganistão, Uzbequistão e Cazaquistão. A seca é em parte culpada, mas as atividades humanas, como as retiradas e desvios de rios não regulados, represas e o subsequente encolhimento do sul do Mar de Aral.

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No entanto, novas águas superficiais permanentes formaram mais do que o dobro dessa área, e todos os continentes, exceto a Oceania, estão mostrando áreas de tal crescimento, principalmente devido ao enchimento de reservatórios. Isso é surpreendente, porque os estudos mostram que, globalmente, os seres humanos estão drenando água doce de maneira mais rápida.

 

Uma das conclusões mais impressionantes a extrair dos dados é que a mudança é localizada. Com uma resolução de 30 metros, essas imagens detalhadas permitiram que a equipe visse milhões de lagos com menos de 1 quilômetro quadrado de tamanho, porém juntos eles podem representar até 40% da área total da Terra.

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Algumas terras são ricas em água: a América do Norte possui um pouco mais da metade da água da superfície permanente da Terra, mas é o lar de menos de 5% da população mundial. A Ásia, onde 60% dos seres humanos vivem, tem apenas 9% da água permanente da Terra – embora as suas águas superficiais tenham crescido 23% durante este período devido à construção de reservatórios. África e América Latina têm cada um cerca de 9% da água permanente da Terra, mas a água da África é compartilhada por duas vezes mais pessoas: 16% do total mundial contra 8,6%.

 

Cada região também contém sua parcela justa de ganhadores e perdedores. “Por exemplo, se você considerar os Estados Unidos da América, a água superficial permanente do país é relativamente estável – áreas globais aumentaram 0,5% desde 1984″, diz Pekel. “Mas durante o mesmo período, seis estados do oeste (Arizona, Califórnia, Idaho, Nevada, Oregon, Utah) perderam 33% de suas superfícies de água devido a uma combinação de seca“, explicou.

 

Dai Yamazaki, engenheiro hidrodinâmico, acredita que a nova coleção de imagens seja a melhor compreensão da mudança das águas na Terra. As águas superficiais “são, em geral, os recursos hídricos mais acessíveis para os seres humanos em muitas partes do mundo, e também para muitos animais e plantas“, observa Yamazaki.

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As principais mudanças na água superficial diretamente direcionadas pela engenharia humana são mais manchas no espaço do que aquelas devido à variação climática. Pekel cita a recuperação da lagoa Garabogazköl Aylagy, do Turcomenistão, após a ruptura de uma barragem entre a lagoa e o Mar Cáspio, em 1992. A crise do mar de Aral, causada em grande parte pelo desvio dos rios que alimentam o mar, também é evidente no espaço.

 

Os impactos da mudança do clima são mais difíceis de observar porque estão emaranhados com tantos outros fatores, incluindo a mudança dos usos humanos da água. Mas alguns podem ser facilmente vistos, como a seca que afetou a Austrália de 2001 a 2009.

 

A expansão dos lagos no platô tibetano, ele observa, foi conduzida pelo derretimento acelerado da neve e da geleira causado por temperaturas e pela precipitação aumentada. “O que é impressionante sobre o planalto tibetano é tanto a velocidade quanto a extensão das mudanças observadas na expansão do lago. É uma mensagem bastante clara que as coisas estão mudando rapidamente no ‘Terceiro Polo”, acrescenta.

 

A mudança climática é um fenômeno de escala global, mas o interesse das pessoas deve ser como ele afeta sua vida normal“, acrescenta Yamazaki. “Este trabalho é feito em escala global, mas tem resolução espacial suficiente para detectar mudanças locais“.

[ Smithsonian ] [ Fotos: Reprodução / Smithsonian ]

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