Hamsters canibais estão comendo os próprios filhotes na França

de Merelyn Cerqueira 0

Uma dieta à base de milho está transformando hamsters selvagens do nordeste da França em canibais “enlouquecidos” e capazes de devorar a própria prole, de acordo com informações de pesquisadores à agência francesa AFP. Segundo eles, a falta de certas vitaminas, particularmente B3 e niacina, pode ser a verdadeira razão para o problema.

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Há claramente um desequilíbrio”, disse Gerard Baumgart, presidente do Centro de Pesquisa para Proteção Ambiental de Alsácia, e especialista em hamsters europeus. “Nosso habitat para hamsters está desmoronando”. Segundo ele, o hamster (Cricetus cricetus), originário do Norte e Leste da Europa e parte da Ásia, no momento, encontra-se em perigo crítico de extinção na Europa Ocidental.

 

Antes nutridos por uma variedade de grãos, raízes e insetos, os roedores hoje vivem de uma forma de milho industrializado. A dieta monótona está deixando os animais famintos, e a descoberta foi feita pelos cientistas quase que por acidente.

 

Liderados por Mathilde Tissier, da Universidade de Estrasburgo, localizada no Leste da França, os pesquisadores decidiram determinar se a dieta dos hamsters afetava a capacidade destes de se reproduzirem na natureza. Um trabalho anterior já tinha observado o impacto dos pesticidas e arado mecanizado, que são capazes de destruir as residências subterrâneas dos roedores, especialmente durante a hibernação, no inverno. Logo, uma possível ligação à dieta permaneceu inexplorada.

 

Em um primeiro conjunto de ensaios com espécimes selvagens os pesquisadores compararam dietas à base de trigo e milho, com outras de plantas ou vermes. Eles notaram que não houve diferenças significativas entre os filhotes nascidos ou no valor nutricional básico de todos os cardápios.

 

No entanto, quando se tratava de taxas de sobrevivência, a diferença era dramática. Cerca de quatro quintos dos filhotes nascidos de mães na dieta de trigo e plantas ou trigo e vermes foram desmamados. Enquanto que 5% dos hamsters bebês cujas mães comeram milho ao invés de trigo não viveram por muito tempo. E a forma como eles morreram, de acordo com os pesquisadores, foi perturbadora. As fêmeas armazenavam seus filhotes junto às tigelas de milho antes de comê-los”, relataram os cientistas. Eles corriam e escalavam desesperados pelas gaiolas enquanto as mães tentavam matá-los.

 

As mães canibais ainda mostraram outros sinais de anormalidade. Elas tinham línguas inchadas e escuras, além de um sangue tão espesso que era difícil ser colhido para amostras. Os pesquisadores reconheceram os sintomas e logo sugeriram um palpite para a causa. A deficiência de vitamina B3 já foi muito associada à síndrome da “língua negra” em cães, enquanto que nos seres humanos é chamada de pelagra. Os sintomas incluem diarreia, demência e dermatite.

 

As dietas baseadas em milho malcozido foram associadas com maiores taxas de homicídio, suicídio e canibalismo em seres humanos”, observaram os pesquisadores. Logo, Tissier e seus colegas pensaram que algo semelhante poderia estar ocorrendo com os hamster. Em um segundo conjunto de ensaios, os pesquisadores ofereceram aos roedores novamente uma dieta à base de milho, mas com adições de vitamina B3. Quando suficientemente nutridas, as fêmeas não apresentaram mais os sintomas e pararam de comer os filhotes.

 

Os cientistas concluíram que as consequências da dieta e deficiência de vitamina B3 decorreram não só da redução de hormônios maternos, mas também de uma mudança no sistema nervoso, que induziu o comportamento canibal. Sabendo que estas espécies já enfrentam muitas ameaças, e que a maioria delas está em perigo de extinção, é urgente restaurar uma variedade de plantas em esquemas agrícolas”, pediram os pesquisadores.

 

Já para Baumgart, a “monocultura na agricultura é realmente ruim para a diversidade e, portanto, precisamos tomar medidas concretas”.

[ Daily Mail / BBC / The Guardian ] [ Fotos: Reprodução / Daily Mail ]

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