Exposição ao chumbo na infância foi associada a crimes agressivos

de Otto Valverde 0

De acordo com um artigo escrito por Ivy Shih e publicado no The Conversation, um novo estudo vinculou a exposição de crianças ao chumbo presente no ar à probabilidade de cometer crimes agressivos – relacionados com comportamentos impulsivos – em uma fase posterior da vida.

Jornal Ciência no seu WhatsApp

Clique aqui (61) 98302-6534, mande “olá” e salve nosso número nos seus contatos. Você receberá notícias do Jornal Ciência diretamente no seu celular.

O estudo populacional realizado na Austrália publicado na revista Environmental Health analisou dados suburbanos, estaduais e nacionais, constatando que: “Depois de controlar os principais correlatos sociodemográficos de criminalidade, há uma forte relação entre a quantidade de chumbo presente no ar e os índices de criminalidade subsequentes”.

Mark Taylor, professor de Ciências Ambientais na Universidade Macquarie e líder da equipe de pesquisa, disse que o estudo foi o primeiro de seu tipo, pelo menos na Austrália, a estudar uma potencial ligação entre o crime agressivo e a exposição ao chumbo na infância em uma escala tão grande. “Essa é mais uma prova de que a exposição a neurotoxinas na infância, tais como as divulgadas durante o período de utilização de gasolina com chumbo, possui efeitos ao longo da vida”, disse ele.

Os pesquisadores não encontraram nenhuma ligação entre a exposição ao chumbo na infância e fraude, problemas de renda e educação. Em contraste com crimes de agressão, a fraude é considerada um crime premeditado. A constatação sugere a possibilidade da relação com o chumbo causar problemas com o controle de impulsos. “Crimes de agressão são considerados crimes impulsivos e o estudo mostrou claramente que que as taxas de assalto mais elevadas foram encontradas em locais de maior exposição ao chumbo”, disse Mark.

Os níveis de chumbo presentes no sangue na população australiana têm diminuído significativamente desde a retirada da substância da gasolina, em 2002, juntamente com regras introduzidas em 1997 para reduzir a quantidade de chumbo permitida em tintas. No entanto, a exposição causa danos ao cérebro das pessoas em comunidades expostas, que se manifestam através do aumento das taxas de agressão.

“Depois de controlar variáveis ​​sociodemográficos, o estudo mostrou que a concentração de partículas de chumbo no ar previu, acertadamente, mudanças nas taxas de criminalidade agressiva. O chumbo foi o mais forte preditor, representando 30% da variação de ataques em cerca de 21 anos mais tarde”, acrescentou o pesquisador.

Apesar de a remoção do chumbo na gasolina ter surtido um efeito significativo, Taylor disse que o chumbo atmosférico permanece elevado em um pequeno número de comunidades australianas. Populações próximas a locais industriais – com mineração e processamento de minérios – permanecem em risco de exposição ao chumbo. “A implicação desse estudo é que o impacto da exposição ao chumbo ambiental se estenda muito além da infância”, disse Taylor.

Merlin Thomas, professor adjunto de medicina preventiva no Baker IDI Heart & Diabetes Institute, que também pesquisou a exposição ao chumbo, disse que o novo estudo revelou um caso muito importante, na Austrália. “O chumbo tem efeitos importantes sobre o desenvolvimento do cérebro em crianças, afetando a inteligência, o desempenho escolar e o comportamento. Como a criminalidade está intimamente relacionada com a prevalência de baixo rendimento escolar, talvez não seja surpreendente que uma associação entre criminalidade e exposição ao chumbo na infância possa existir. Ao mesmo tempo, não deixa de ser preocupante e, mais importante ainda, potencialmente evitável”, disse Thomas, que não esteve envolvido no estudo.

[ Foto: Reprodução / Ecycle ]

Jornal Ciência