Como passamos grande parte de nosso tempo recebendo e transmitido informações por meio da fala e escrita, é natural que elas aparentem ocorrer de forma espontânea.

O caso é que, também vemos isso com a leitura, o que incorreto, uma vez que ela não ocorre de forma natural e sequer temos uma área no cérebro que seja dedicada a isso, mais especificamente a decodificação de símbolos, conforme informado por um artigo escrito por Michele Müller e publicado pelo Huffington Post.

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A leitura é na verdade uma habilidade complexa a qual o cérebro precisa se adaptar. Para isso, ele desenvolve um circuito neural que envolve as regiões responsáveis pela visão, audição e linguagem.

Você provavelmente já deve ter esquecido como foi difícil aprender a ler. Quem tem criança em casa sabe que essa é uma etapa da vida que não acontece de um dia para o outro. Trata-se de uma habilidade adquirida de forma gradual e que, por ansiedade dos pais e professores, tornou-se obrigação dentro dos sistemas de ensino pré-escolar e básico ainda em 2004.

Logicamente falando, por ser algo tão complexo, a linguagem escrita deveria ser incorporada à vida das crianças o mais cedo possível.

Se considerarmos que para isso há uma necessidade de formar conexões importantes no cérebro, então sim, o processo deve começar o mais cedo possível.

Contudo, a alfabetização por si só, para ocorrer com sucesso, deve começar apenas quando algumas primeiras etapas estiverem bem construídas e assimiladas pela criança.

Porém, como vimos, há uma ansiedade por parte dos pais e professores para que as crianças, a maioria delas com cinco ou seis anos de idade, entre no segundo ano do fundamental sabendo ler e escrever. O fato é que, nesta fase da vida, seus cérebros não estão completamente formados.

Algumas áreas, como as evolvidas na leitura, por exemplo, não estão suficientemente desenvolvidas, o que faz com que a decodificação de símbolos seja mais penosa.

Aos quatro anos, a maioria das crianças é capaz de memorizar letras e sílabas, bem como reproduzir palavras inteiras e escrever o próprio nome. Contudo, só o fazem porque têm uma memória excelente, e não porque estejam realmente compreendendo as coisas.

De acordo com numerosos estudos, essa maturidade para a linguagem escrita ocorre apenas na fase dos seis e sete anos, quando as crianças passam por um processo de “revolução mental”, proposto pelo neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene no livro “Os Neurônios da Leitura (Penso Editora). Segundo ele, nesta fase, a criança começa a compreender que a palavra pode ser quebrada em diversos fonemas.

Porém, há de se considerar que nenhum cérebro é igual e haverá sempre variações na facilidade com que cada um aprende a linguagem escrita. Logo, cabe à escola conhecer e respeitar o ritmo de cada um dos alunos.

Sugere-se então, que a alfabetização nessa fase precoce da vida é apenas perda de tempo. Esse momento deveria ser mais bem aproveitado, considerando que as crianças da pré-escola estão em pleno desenvolvimento de consciência metalinguística e ampliação de vocabulário.

Portanto, ao invés de forçar um cérebro imaturo a relacionar letras a sons, deve-se primeiro exercitar a fala e habilidades metalinguísticas, para que, assim, a criança vá se familiarizando com a complexidade de uma construção sintática. Mais importante que isso, é que a leitura precisa ser algo agradável e prazeroso para os pequenos e não um desafio cansativo.

Fonte: The Huffington Post Fotos: Reprodução / Flickr / Domínio Público

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