Cientistas descobrem por que viagens espaciais prejudicam a visão dos astronautas

de Gustavo Teixera 0

Uma misteriosa síndrome tem prejudicado a visão dos astronautas na Estação Espacial Internacional, causando uma miopia intratável que persiste por meses, mesmo depois de terem retornado à Terra.

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O problema é tão ruim que dois terços dos astronautas relatam que tiveram a visão danificada depois de um período em órbita. Agora os cientistas dizem que finalmente têm algumas respostas, que não são tão boas para as perspectivas de se chegar a Marte. “Ninguém passou dois anos com exposição a isso, e a preocupação é que teríamos a perda da visão“, disse Dorit Donoviel, do Instituto Nacional de Pesquisas Biomédicas do Espaço, ao jornal britânico The Guardian.

No começo deste ano, a NASA relatou que algo no espaço alterava a visão perfeita dos seus astronautas, causando prejuízo a longo prazo. O astronauta Scott Kelly, cuja a capacidade enxergar bem foi parte da razão pela qual ele foi selecionado para ser o primeiro astronauta da América a passar um ano inteiro no espaço, disse que foi forçado a usar óculos de leitura desde que voltou para casa.

Outro astronauta, John Phillips, que passou algum tempo na Estação Espacial Internacional (ISS) em 2005, também relatou que sua visão ficou borrada quando voltou para casa, e durante a avaliação física pós voo, a NASA confirmou que sua visão tinha ido de 20/20 a 20/100, uma escala que oftalmologistas usam para medir a qualidade da visão, em apenas seis meses.

A NASA suspeitou que essa condição – visual impairment intracranial pressure syndrome, algo como síndrome da deficiência visual causada por pressão intracraniana – foi causada pela falta de gravidade no espaço. A hipótese era que a microgravidade da ISS estava aumentando a pressão na cabeça dos astronautas, fazendo com que cerca de 2 litros de fluido vascular se deslocassem em direção a seus cérebros.

Eles dizem que a pressão foi responsável pelo achatamento dos globos oculares e inflamação dos nervos ópticos observados nos exames feito em astronautas que retornaram. “Na Terra, a gravidade puxa os fluidos corporais para baixo em direção aos pés, o que não acontece no espaço, e acredtia-se que o fluido extra no crânio aumente a pressão sobre o cérebro e a parte de trás do olho” relatou Shayla Love para o jornal norte-americano The Washington Post.

Agora, uma equipe da Universidade de Miami, nos EUA, realizou o primeiro estudo para testar essa hipótese e descobriu que algo mais tem causado problemas de visão em astronautas. Os pesquisadores obervaram o antes e depois dos exames cerebrais de sete astronautas que passaram muitos meses na ISS e os compararam a nove astronautas que acabavam de fazer viagens curtas para o ônibus espacial americano, que foi desativado em 2011.

A grande diferença era que os astronautas que passavam longos períodos no espaço tinham significativamente mais líquido cefalorraquidiano, o fluído intracraniano, em seus cérebros do que os astronautas que passavam curtos períodos no espaço, e os pesquisadores dizem que essa é real causa da perda de visão.

Em circunstâncias normais, o líquido cefalorraquidiano é importante para amortecer o cérebro e a medula espinhal, distribuindo também nutrientes ao redor do corpo. Ele pode facilmente se ajustar a mudanças na pressão que nossos corpos sofrem ao levantarmos quando estamos deitados ou sentados, mas na microgravidade constante do espaço, ele oscila.

Na Terra, O líquido cefalorraquidiano é construído para acomodar essas mudanças de pressão, mas no espaço o sistema é confundido pela falta de mudanças de pressão relacionadas à troca de postura“, diz Noam Alperin um dos membros da equipe.

Baseado na órbita de alta resolução e exames de ressonância magnética cerebral de seus 16 astronautas, a equipe descobriu que os astronautas que passavam longos períodos no espaço tinham volume de líquido cefalorraquidiano orbital muito maior sendo que o agrupamento deste líquido ocorre em torno dos nervos ópticos na parte do crânio que segura o olho. Eles também tinham volume de líquido cefalorraquidiano orbital ventricular maior, o que significa que o líquido estava acumulado nas cavidades do cérebro onde o fluido é produzido.

A pesquisa fornece, pela primeira vez, evidências quantitativas obtidas de astronautas que fizeram viagens de curta e longa duração apontando para o papel primário e direto do líquido cefalorraquidiano nas deformações globais observadas em astronautas com síndrome de deficiência visual“, diz Alperin. 

Os resultados foram apresentados na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte em Chicago nesta semana e ainda têm de ser revisados, então vamos ter que esperar para que os resultados sejam replicados por uma equipe independente antes de termos certeza de que esta é a resposta. Mas mesmo que essa hipótese, ou a hipótese original da NASA, se torne mais precisa, ainda temos um grande problema para ser resolvido.

Agora, não há soluções para tratar ou prevenir acumulação de fluidos no espaço e nem outros danos esperados pela longa exposição à microgravidade.

Se quisermos pensar em colonização de Marte, vamos ter que considerar a perda de visão como uma complicação potencial.

[ Science Alert ] [ Fotos: Reprodução / Science Alert ]

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