Especialistas alertam que crianças não devem usar maconha medicinal devido a riscos para o desenvolvimento cerebral

de Merelyn Cerqueira 0

Autoridades de saúde nos EUA declaram, por meio de novas diretrizes, que o uso medicinal de maconha em crianças pode ser perigoso para o desenvolvimento cerebral, segundo informações do Daily Mail. O alerta foi divulgado na semana passada pela Academia Americana de Pediatria, uma vez que o consumo nos EUA vem sendo legalizado entre os estados.

 

O coautor do relatório, Dr. Seth Ammerman, professor de Pediatria da Universidade de Stanford, afirmou que entende que muitos adultos que usam a droga acreditam que seja aceitável para seus filhos consumi-la de forma medicinal. “Mas, é preferível que não mexamos com um cérebro em desenvolvimento”, disse.

 

Nos EUA, a maioria dos estados já legalizou o uso medicinal para adultos. Entre esses, grande parte também já legalizou o uso recreativo. Essas tendências têm levado o país a questionar cada vez mais os efeitos em relação às crianças.

 

Os pais vão dizer: ‘Eu uso moderadamente e estou bem com isso, então não deve ter problema deixar meu filho usar”, disse Dr. Ammerman. Segundo ele, os médicos precisam saber como responder esse pensamento, e os pais e adolescentes precisam ter consciência dos riscos.

 

Riscos potenciais

O cérebro continua a se desenvolver até o início dos 20 anos. Logo, as preocupações sobre os riscos de uma droga que causa alterações na mente devem ser consideradas a curto e longo prazo.

 

Alguns estudos sugerem que adolescentes que usam a droga pelo menos 10 vezes por mês desenvolvem alterações nas regiões do cérebro relacionadas à memória e capacidade de planejar. Algumas dessas alterações podem ser permanentes, de acordo com o relatório. O uso frequente logo no início da adolescência também pode vir acompanhado de redução de QI. Ainda, alguns estudos já mostraram que o consumo nessa fase da vida pode levar ao vício mais intenso do que quando iniciado durante a fase adulta.

 

Enquanto que nem todos os usuários adolescentes desenvolvem esses problemas, é dito que alguns podem ser mais vulneráveis por razões genéticas ou outros fatores.

 

Uso médico X Uso recreativo

Até mesmo as pesquisas mais sólidas sobre os efeitos da maconha medicinal em crianças ainda necessitam de mais informações, embora algumas sugiram que o uso pode beneficiar casos de convulsões difíceis de serem tratados.

 

Nos EUA, o uso recreativo é ilegal para menores de 21 anos, mesmo em estados que legalizaram a substência. De acordo com a Academia, os pais são aconselhados a não consumir a droga na frente dos filhos e a manter todos os produtos feitos à base dela longe da visão deles. Já foram relatados casos envolvendo consumo acidental, com algumas crianças desenvolvendo problemas respiratórios.

 

Quem está usando?

Dados fornecidos pelo governo dos EUA apontam que quase 40% dos estudantes do ensino médio já consumiram maconha. Cerca de 20% destes são usuários, enquanto que 13% a experimentaram pela primeira vez antes dos 13 anos. E o número de usuários tem aumentado cada vez mais nos últimos anos, especialmente entre os maiores de 18, mas não em adolescentes. No entanto, crianças entre 12 e 17 anos cada vez mais acreditam que o consumo da droga não é prejudicial.

 

De acordo com Dr.ª Sheryl Ryan, professora de Pediatria da Universidade de Yale e principal autora do relatório, a maconha é a droga preferida entre seus pacientes adolescentes em New Haven, Connecticut. Segundo ela, alguns pensam que o uso diário é seguro, uma vez que seus pais e avós consumiram durante a juventude e hoje estão bem. No entanto, ela alerta que as drogas vendidas hoje são muito mais potentes e envolvem mais riscos.

 

No país, 28 estados e o Distrito de Columbia hoje permitem o uso da maconha para uma variedade de questões medicinais, enquanto que, oitos desses, além do Distrito, permitem o uso recreativo. Isso significa que quase um quarto dos norte-americanos (mais de 20%) atualmente tem acesso à droga de maneira recreativa, enquanto que 60% para uso medicinal.

 

No entanto, alguns especialistas, incluindo cirurgião geral da Casa Branca, Dr. Vivek Gupta, advertem que a legalização está avançando de forma mais rápida do que as pesquisas sobre o assunto. Em um relatório divulgado em novembro do ano passado, o médico pediu cautela com a droga, assumindo que “ela é de fato viciante”. Ele citou ainda “um crescente corpo de pesquisas” que sugere que os produtos químicos feitos à base de marijuana podem ajudar com “dores, náuseas, epilepsia, obesidade, doenças, dependência, doenças autoimunes e outras condições”.

 

No entanto, ele admite apoiar a ideia de diminuir as restrições aos estudos sobre a droga, mas insiste que é apenas para acelerar nossa compreensão científica sobre ela – e não um “sinal verde” para as pessoas consumirem.

[ Daily Mail ][ Foto: Reprodução / Daily Mail ]

Jornal Ciência