Um único arranhão em panelas antiaderentes pode colocar sua saúde em risco com substâncias tóxicas, diz estudo

Segundo a pesquisa, um risco de apenas 5 centímetros é suficiente para causar danos à saúde com os chamados “produtos químicos eternos” associados ao câncer, autismo e infertilidade

de Redação Jornal Ciência 0

De acordo com um recente estudo australiano, um único arranhão de 5 centímetros em uma panela antiaderente pode liberar no alimento, e dentro de sua casa, milhões de partículas tóxicas de microplásticos.

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Através de ondas de luz que medem partículas microscópicas, os cientistas conseguiram constatar uma “explosão de pequenas toxinas” que ocorre em um arranhão — algo que os pesquisadores consideram como preocupante.

Quando você utiliza qualquer utensílio de metal em panelas antiaderentes e faz um arranhão, até 2,3 milhões de microplásticos tóxicos são liberados, de acordo com o estudo que levou em consideração panelas revestidas com Teflon.

De acordo com Jonatan Kleimar, consultor da ChemSec — organização sem fins lucrativos da Suécia que defende o uso seguro de produtos químicos — o Teflon contém a classe de substâncias chamadas de PFAS (compostos per e polifluorados).

Esta classe contém os chamados “produtos químicos eternos ou para sempre”, apelidados assim porque as substâncias que fazem parte deste grupo possuem capacidade extraordinária de permanecer no corpo, na água, na poeira, na natureza, lençóis freáticos e até na corrente sanguínea.

Ao total, existem mais de 4.700 substâncias que entram na lista da classe dos PFAS. Elas são tão presentes no nosso cotidiano que são usadas em centenas de produtos industriais ao redor do mundo. Segundo o jornal Daily Mail, um estudo de 2020 mostrou que 99% dos norte-americanos têm níveis detectáveis destes compostos no sangue. Nos últimos anos, tais substâncias estão sendo associadas com autismo, infertilidade e vários tipos de câncer.

A atual pesquisa, que foi publicada na Science of The Total Environment, foi chefiada por Cheng Fang, cientista da Universidade de Newcastle, na Austrália.

Pesquisa publicada na Science of The Total Environment

“Dado o fato de PFAS ser uma grande preocupação, essas micropartículas de Teflon em nossos alimentos podem ser um problema de saúde, então precisa ser investigado, porque nós não sabemos muito sobre esses contaminantes emergentes”, disse Fang ao Daily Mail.

“Mais pesquisas são recomendadas para abordar a avaliação de risco dos microplásticos e nanoplásticos de Teflon, uma vez que o Teflon é um membro da família de PFAS”, diz o cientista.

O jornal Daily Mail abordou o tema dizendo que o Teflon é considerado um “gigante industrial” porque faz parte do revestimento de grande parte dos utensílios antiaderentes utilizados nas cozinhas, além de outras aplicações. O revestimento antiaderente chamado Teflon tem nome químico politetrafluoretileno (PTFE), e é um tipo de PFAS.

PFAS e seus perigos ocultos

Pesquisas anteriores já mostraram que pessoas expostas a “produtos químicos para sempre” na juventude podem ter o desenvolvimento social e físico afetados à medida que envelhecem.

Após ingerir, produtos químicos como os PFAS permanecem muitos anos no corpo humano e saem vagarosamente na urina. Alguns cientistas calculam que o processo pode levar 10 anos a partir da primeira ingestão, mas jamais se decompõem no meio ambiente.  

Um estudo da Universidade do Texas, ano passado, descobriu que crianças expostas aos diversos tipos de PFAS que existem, quando ainda estão no útero, eram mais propensas a desenvolver autismo. Exposição a longo prazo aumenta risco de câncer de rim, testículos, ovário, próstata, tireoide e medula óssea quando atingem a idade adulta.

Vários outros estudos independentes de estados norte-americanos, incluindo o estado do Maine, foram usados para proibir o uso de PFAS em objetos do cotidiano como roupas e roupas de cama. Alguns cientistas temem que esses produtos químicos perigosos e “eternos” sejam tão prevalentes na vida, que seja impossível evitá-los totalmente.

“É muito difícil encontrar uma saída para a exposição aos PFAS. Você pode se livrar de um produto, mas a coisa que você substituirá também [possivelmente] terá PFAS”, diz Sydney Evans, da Environmental Working Group.

Qual o problema com o Teflon?

O famoso Teflon (marca comercial registrada) é uma substância química, grande aliada dos amantes da cozinha desde que foi patenteada pela empresa norte-americana DuPont em 1941. A substância em si foi considerada uma revolução à época, sendo usado até pela NASA nos trajes espaciais dos astronautas como um “escudo térmico” na década de 1960.

O composto foi inventado para ser usado em geladeiras, mas acabou indo parar no revestimento de panelas e em dezenas de materiais, incluindo no sangue de 98% das pessoas pesquisadas em um estudo de 2007, de acordo com afirmação da revista Superinteressante.

O Teflon (abreviado como PTFE) é degradado pelo calor excessivo, ocorrendo dissolução de várias substâncias tóxicas, incluindo gases corrosivos e letais, além de PFIB (perfluoroisobuteno), uma substância altamente tóxica capaz de permanecer por longos períodos nos ambientes.

O politetrafluoretileno (Teflon) é, na verdade, o que dá o poder antiaderente ao objeto. É um tipo de “plástico” transparente que reveste as panelas de metal para dar aspecto ceroso, repelindo a água e tornando as superfícies fáceis de limpar e não grudar.

Mas, segundo a médica Dra. Suzanne Fenton, endocrinologista reprodutiva do National Institute of Environmental Health Sciences, dos EUA, o problema em si é quando o Teflon é aquecido demais. Esta é a grande preocupação dos cientistas. “Quando as panelas são superaquecidas, o revestimento de PTFE começa a se desintegrar”, segundo ela. É justamente aí que substâncias e gases tóxicos são liberados.

De acordo com informações do Environmental Working Group, o Teflon é capaz de permanecer em nosso organismo por longos períodos, provocando danos ao fígado e à tireoide.

Panelas de Teflon extremamente arranhadas são uma das maiores fontes de contaminação química dos alimentos que estamos cozinhando, por soltar fragmentos da substância.

O caso da produção de Teflon usando ácido tóxico

A Agência Americana de Proteção Ambiental já havia confirmado, anos atrás, que uma das substâncias usadas na antiga produção do Teflon, era o ácido perfluorooctanóico (PFOA), com potencial comprovado de risco de câncer — afirmação da American Cancer Society.

O ácido perfluorooctanóico (PFOA) era usado na produção do Teflon pela DuPont para dar estabilidade durante o processo de polimerização e formação do Teflon em si. Os documentos de arquivos sigilosos expostos, de acordo com a revista Superinteressante, afirmam que a DuPont, através de relatórios médicos, estudos internos e anotações privadas dos cientistas da empresa, sabia que o ácido perfluorooctanóico (PFOA) era tóxico.

Este ácido é uma substância tão estável quimicamente que, muito provavelmente, ainda existirá no planeta Terra quando a humanidade deixar de existir.

No ano de 1961, os cientistas da DuPont sabiam que o ácido poderia aumentar o fígado em ratos e coelhos. Em 1962, a empresa pediu que funcionários fumassem cigarros contendo o ácido, para avaliar o nível de toxicidade: a maior parte foi parar no hospital. Mas, a produção de Teflon, usando o ácido, continuou.

Após 10 anos, uma nova investigação da empresa mostrou que seus funcionários, envolvidos na produção do Teflon, tinham altas concentrações do ácido perfluorooctanóico (PFOA) no sangue, mas nada foi feito.

Quem produzia o ácido perfluorooctanóico (PFOA) e vendia a substância para a DuPont, era a multinacional 3M. A empresa 3M chegou a alertar a DuPont que o PFOA tinha potencial de causar câncer e mutações em ratos — especialmente fêmeas prenhas, que geravam filhotes com malformação nos olhos.

Após isso, a DuPont afastou mulheres jovens da linha de produção do Teflon, mas não deu explicações sobre o motivo. Infelizmente, algumas crianças filhas de mulheres da fábrica nasceram com malformação de olhos e narinas.

Relatórios mostram que esta informação foi mantida em sigilo por 40 anos e só foi revelada após um processo judicial movido por um fazendeiro — que acabou morrendo de câncer em 2010 — tornando-se uma longa reportagem no jornal The New York Times, além da produção do filme “Dark Waters: O Preço da Verdade”, de 2019, baseado nos fatos apresentados pelo jornal.

No ano de 2015, panelas de Teflon usando o ácido perfluorooctanóico (PFOA) foram proibidas de serem produzidas. Mesmo assim, as panelas contendo o material anterior ao ano da proibição oferecem risco à saúde, já que milhões de pessoas, possivelmente, têm panelas com Teflon antigo, de acordo com a revista Reader’s Digest, tendo a necessidade de serem jogadas fora quando arranhadas.

Embora seja raro alguém inalar os vapores tóxicos da panela revestida de Teflon por aquecimento excessivo, isso pode acontecer, e provocar a chamada “febre dos vapores de polímero”, “febre polimérica” ou informalmente “gripe Teflon” — doença que gera sintomas como falta de ar, moleza, fraqueza e febre alta em alguns casos.

Na verdade, os gases liberados são tão prejudiciais e tóxicos que há registros, segundo a revista on-line Live Science, de lâmpadas revestidas com Teflon antigo que, após aquecidas, eliminaram aviários inteiras.

O Teflon, atualmente, é seguro?

A gigante química Dupont, em 2017, fechou acordo em um processo judicial no valor de US$ 670 milhões — mais de R$ 3,3 bilhões — por seu papel na contaminação da água potável com ácido perfluorooctanóico (PFOA), em Mid-Ohio Valley, EUA.

Um processo judicial, uma ação coletiva de 2004, na mesma região/área, desencadeou estudos científicos que descobriram que o ácido PFOA estava ligado ao câncer e ao comprometimento da função imunológica, mesmo em pequenas doses, de acordo com dados apurados pelo portal CNET.

Todos estes acontecimentos tiveram forte impacto entre os fabricantes de panelas antiaderentes. A maioria decidiu parar de usar Teflon no revestimento de seus produtos por volta de 2002.

“Em 2006, a DuPont assumiu o compromisso de eliminar o uso de PFOA, o que alcançamos em 2015”, afirma nota da empresa à Superinteressante, no ano de 2020. Mas, o Teflon fabricado com PFOA não foi oficialmente proibido nos Estados Unidos até 2014. A Europa foi mais severa e proibiu antes, em 2008.

Isso significa que se você possui panelas antiaderentes de Teflon de 2013 ou anterior, há uma chance de conter ácido perfluorooctanóico (PFOA). Em geral, o consumidor usa panelas antiaderentes por 9 anos, mas muitos não se preocupam com a troca e usam por tempo indeterminado.

Se não tiver certeza sobre a data de fabricação, provavelmente é melhor substituir qualquer panela ou frigideira revestida de Teflon antigo, caso possa fazê-lo.

Devo descartar minhas panelas?

Para a Dra. Fenton, o melhor a fazer é descartar panelas de Teflon que estejam arranhadas. Como médica endocrinologista, ela ressalta que os piores cenários de uso de panelas desgastadas são para as grávidas, mulheres que amamentam ou que cozinham alimentos para crianças.

Ela é categórica em afirmar que o politetrafluoretileno (Teflon) tem ligação direta e comprovada com problemas de desenvolvimento infantil, sendo considerado uma substância com poder de desregular nosso sistema endócrino, interferindo diretamente nos hormônios do nosso corpo.

Como escolher antiaderentes sem PFOA?

Os EUA proibiram todas as panelas antiaderentes de serem fabricadas com materiais contendo o ácido PFOA. Outros países e blocos, como a União Europeia, também proibiram, mas existem muitos outros onde a fabricação é livre. Panelas contendo revestimento produzido com ácido PFOA são livres em grandes fabricantes e exportadores mundiais, como a China, vendendo para várias partes do mundo.

Para não ser exposto aos produtos químicos e tóxicos que panelas podem transferir aos alimentos durante o cozimento, procure sempre por selos, adesivos ou afirmações na embalagem com o indicativo LIVRE DE PFOA. Isso garante que a panela não contém a substância.

Quais as melhores?

Após os escândalos envolvendo os revestimentos antigos de Teflon, alternativas mais amigáveis à saúde surgiram, como panelas 100% cerâmicas, ferro fundido, aço inoxidável, aço inoxidável cirúrgico e vidro.

Sobre as panelas de cerâmica, é importante saber se são completamente feitas de cerâmica ou apenas revestidas. Se forem somente revestidas, há necessidade de troca das panelas quando a cerâmica começar a rachar e sofrer arranhões, já que após isso podem liberar chumbo e cádmio em seu alimento, sendo igualmente tóxicos à saúde.

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Fonte(s): Daily Mail / Science of The Total Environment / Dr. Ferrari / American Cancer Society / Reader’s Digest / Health Line / Live Science / CNET / Incrível / Super Interessante / C8 Science Panel / Universidade do Texas Imagens: Reprodução / Redes Sociais 

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