Décadas de avanços científicos resolvem caso perturbador de assassinato e necrofilia

de Redação Jornal Ciência 0

Um caso particularmente terrível, originado em Kent, Inglaterra, na década de 1980, veio à tona recentemente graças aos avanços no perfil de DNA — e acabou sendo muito pior do que se pensava.

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O eletricista hospitalar David Fuller, de 67 anos, não foi condenado ainda pelos assassinatos que cometeu e, agora, está provado que ele também foi responsável pela agressão sexual de pelo menos 100 cadáveres de mulheres e crianças em dois necrotérios em hospitais onde trabalhava.

Fuller só foi pego após comparação de seu DNA com o material genético de um parente que foi mantido em um banco de dados. No entanto, o caminho para a descoberta foi longo; a história de como esses assassinatos foram resolvidos só foi possível após 30 anos de avanços científicos.

Quando os dois assassinatos vieram à tona, em 1987, o perfil de DNA era muito primitivo para ajudar a polícia a encontrar o assassino. Na verdade, os investigadores da época não puderam nem mesmo afirmar definitivamente que os assassinatos foram cometidos pela mesma pessoa.

As vítimas, Wendy Knell e Caroline Pierce, viviam na mesma cidade, mas tinham pouco mais em comum. Suas mortes também pareciam diferentes: Knell foi assassinada primeiro. Ela foi encontrada em sua cama, espancada e estrangulada, na manhã de 24 de junho — de acordo com a polícia local, ela havia sido estuprada durante ou após sua morte.

Pierce foi morta cerca de 5 meses depois. Seu corpo foi encontrado embaixo da água em um dique à beira da estrada, a mais de 64 quilômetros de onde ela morava — ela havia sido sequestrada de sua casa três semanas antes.

Mas, ela também havia sido abusada sexualmente, espancada e estrangulada. A polícia suspeitou que os dois assassinatos estavam ligados, mas não puderam provar. Os investigadores coletaram pistas forenses de ambas as cenas, mas, 8 antes da criação do Banco de Dados Nacional de DNA do Reino Unido, e sem nenhum suspeito óbvio sob custódia, eles não puderam localizar o assassino.

Em 1999, a perícia de DNA já havia evoluído. A polícia local revisou o caso e foi capaz, pela primeira vez, de construir um perfil de DNA completo do assassino de Knell a partir das evidências deixadas em seus lençóis — mas a busca no banco de dados de DNA não revelou nenhuma correspondência.

Demorou mais 20 anos para vincular Pierce ao caso. Uma amostra parcial de DNA pôde finalmente ser extraída do sêmen encontrado em suas meias — a única peça de roupa com que ela foi encontrada — apesar das três semanas que seu corpo passou debaixo d’água. O DNA correspondia às amostras encontradas também na casa de Knell.

Em 2019, uma técnica forense revolucionária foi desenvolvida: o DNA familiar. Em vez de ter que verificar as evidências de DNA no Banco de Dados Nacional na esperança de que o próprio assassino tivesse entrado no sistema, o DNA familiar permitiu que os investigadores identificassem pessoas que eram seus parentes.

“O DNA familiar foi absolutamente crucial”, disse Noel McHugh, que aconselhou os investigadores de Kent e agora trabalha para a Agência Nacional do Crime do Reino Unido, em entrevista à BBC. “Isso permitiu que os investigadores reduzissem os perfis de 6,5 milhões no banco de dados nacional de DNA para um número viável que acabaria por identificar o assassino”.

De 6,5 milhões de pessoas, a polícia agora tinha uma lista de apenas 90, e começaram a eliminar os suspeitos, um por um. Eles viajaram todo o Reino Unido para coletar amostrar voluntárias de DNA de suspeitos. Então, o exame de DNA mostrou compatibilidade com o irmão de Fuller, o eletricista assassino.

A partir daí, as evidências começaram a se encaixar: Fuller tinha a idade que se imaginava ter o assassino, estava na mesma área do ocorrido e na mesma hora aproximada. A polícia conseguiu encontrar um diário onde ele descrevia suas visitas aos locais de trabalho das mulheres, armando seu plano macabro.

Também foram encontradas fotos onde Fuller usava sapatos com o mesmo tipo de solado. Mas não foi só isso que encontraram.

Cerca de 4 milhões de imagens de abuso sexual — “uma biblioteca de depravação sexual inimaginável”, disse o promotor Duncan Atkinson QC — foram encontradas em 5 terabytes de espaço em disco rígido, 1.300 vídeos e CDs, 34.000 fotografias, e centenas de discos rígidos com outros materiais. Alguns foram baixados da internet; outros foram filmados pelo próprio Fuller.

Nas imagens, algo estarrecedor: ele estava em necrotérios onde trabalhava, praticando abusos. É um caso que nenhum tribunal britânico viu antes. Pelo menos 100 corpos de mulheres e crianças (o cadáver mais velho com 100 anos e o mais novo com apenas 9 anos), foram abusadas sexualmente por Fuller.

Os investigadores conseguiram identificar a maioria dos corpos graças a mais avanços forenses: eles escolheram os nomes escritos nas pulseiras dos corpos que foram capturados pela câmera de Fuller e os cruzaram com os registros mortuários das datas coletadas do vídeo. Muitos dos nomes foram gravados pelo próprio Fuller em uma data posterior. “Ele não queria deixá-las em paz”, disse a promotora Libby Clark à BBC.

Ao que tudo indica, após os abusos, ele pesquisava na internet, inclusive no Facebook, para saber como eram as vítimas quanto estavam vivas, por isso ele gravava seus nomes.

O caso levou a polícia a fazer um esforço para localizar e informar as famílias das pessoas que Fuller abusou. Isso fez com que o NHS (o SUS da Grã-Bretanha) revisasse os protocolos mortuários para impedir abusos sexuais.

Fonte(s): IFLScience Imagens: Reprodução / Cavan-Images / Shutterstock.com

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