Zolpidem: perigos do medicamento contra insônia que viralizou após “neto da Rainha de Gênova” gastar, sem saber, R$ 9 mil do cartão

O Hemitartarato de Zolpidem é usado contra casos de insônia, mas pode ter graves efeitos colaterais, incluindo alucinações, muitas vezes ignoradas como algo “sem importância”

de Redação Jornal Ciência 0

O medicamento Zolpidem, já famoso entre pessoas com problemas para dormir, ficou notório nas redes sociais na quinta-feira (11/08), tornando-se um dos assuntos mais comentados do Twitter.

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Tudo começou quando um jovem de 20 anos postou prints de uma conversa com a empresa de viagens CVC, informando ter tido alucinações ao tomar o medicamento Zolpidem e comprado uma viagem no valor de R$ 9.000, informando aos seus amigos que era “neto da Rainha de Genovia” — agora citado em seu perfil como “Gênova”. 

O relato viralizou, com mais de 185.000 curtidas. Milhares de pessoas responderam ao post relatando suas experiências constrangedoras e perigosas após o uso do medicamento. Vários usuários do Twitter mostraram prints, áudios e mensagens que já mandaram, sem saber, após tomar Zolpidem.

Há relatos anteriores de pessoas que saíram de casa, foram ao supermercado, dirigiram, tiveram relações sexuais sem camisinha, contaram segredos aos pais, amigos ou em grupos de WhatsApp, e não se lembravam de absolutamente nada no dia seguinte.

Todos estes comportamentos não são novos para profissionais de saúde que lidam com pacientes que sofrem de insônia. É sabido, há muitos anos, os efeitos que o Zolpidem — medicamento da classe dos hipnóticos — pode provocar.

Apesar de todos os perigos comportamentais relatados, polemicamente ele foi rotulado como tarja vermelha, mas necessita de Receita de Controle Especial branca para ser comprado. Na teoria, ele teria menor potencial de causar dependência física e menos efeitos colaterais sobre a atenção e memória, quando comparado aos benzodiazepínicos —Clonazepam (Rivotril), Alprazolam (Frontal), Bromazepam (Lexotan) e tantos outros.

Mas, vários especialistas questionam essa rotulagem tida como “mais segura” e garantem que o Zolpidem deveria ser classificado como tarja preta. Isso porque milhares de pacientes relatam problemas de dependência física ou psíquica, além de efeitos colaterais preocupantes como fazer coisas e não saber.

A bula do medicamento diz que alguns hipnóticos, como o Zolpidem, podem apresentar perda de eficácia dos efeitos após uso prolongado por algumas semanas.

Existem milhares de relatos de dependência do medicamento, pessoas que ficam dias sem dormir se o remédio acabar, outras que aumentam a dose máxima (que seria 10 mg) porque não sentem o mesmo efeito após algumas semanas.

Com o passar do tempo, o efeito já não é o mesmo para muitos pacientes. Efeito semelhante ocorre nos rotulados como “tarja preta”, quando pacientes adquirem tolerância.

Médicos especialistas em sono, psiquiatras e farmacêuticos alertam o que já consta em bula (ignorada por muitos): o Zolpidem deve ser usado por curtos períodos e pode sim causar dependência.

O caso de alucinação do “neto da Rainha de Gênova”, consta em bula e pode ocorrer entre 0,1% e 1% dos pacientes. Mas, a taxa de delírios aumenta se o paciente fizer uso de outros psicotrópicos, como antidepressivos, possuir idade avançada ou predisposição.

Zolpidem

Os hipnóticos como o Zolpidem foram lançados como pertencentes à classe de drogas Z, ou seja, mais modernos que os benzodiazepínicos (como o famoso Rivotril, por exemplo) e com muito menos efeitos colaterais e potencial de não causar dependência.

A ação do medicamento ocorre por sua ligação com os receptores de GABA — um dos neurotransmissores mais importantes que temos no cérebro. Ele é indicado para períodos curtos de insônia, tratamentos iniciais ou de manutenção, jamais indicado para uso contínuo.

Os principais efeitos colaterais são dores de cabeça, problemas gastrointestinais, crises de sonambulismo, a famosa amnésia anterógrada — quando uma pessoa não é capaz de se lembrar de coisas recentes que fez —, problemas na coordenação motora dificultando o caminhar, pesadelos, confusão mental e diversos outros. Os efeitos colaterais são ainda mais presentes e acentuados se ultrapassar a dose máxima de 10 mg.

Pessoas que usam álcool devem abolir o uso junto com Zolpidem, pelo grande potencial de confusão mental severa, sedação e perda de memória de eventos graves (como abuso sexual e estupro).

Alguns pacientes usam o medicamento de modo recreativo ou para fugir da realidade de seus problemas. Recentemente, descobriu-se que o medicamento Zolpidem está sendo usado, em altas doses, para aplicar o famoso golpe “Boa Noite Cinderela”, já que os efeitos hipnóticos podem fazer a vítima esquecer completamente o que ocorreu, como chegou em casa e carregada por quem.

A droga pode ser prescrita por qualquer médico, mas dê preferência para especialistas em sono, como neurologistas ou psiquiatras, para receber melhores orientações sobre os efeitos colaterais, seus riscos e tempo de uso.

Imagens: Reprodução / Twitter e Dr. Luan Diego

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