Você sabia que é possível ter 23 personalidades? Conheça o Transtorno Dissociativo De Identidade

de Merelyn Cerqueira 0

O cinema sempre foi um lugar para ensinar a sociedade de uma maneira mais fácil. O filme Fragmentado (2017), de M. Night Shyamalan, aborda o transtorno de múltiplas personalidades.

O drama mostra a vida de Kevin (James McAvoy) que possui 23 personalidades com idades, gêneros e até doenças diferentes. O TDI tem sido estudado há anos pelos especialistas, mas ainda está longe de acabarem as dúvidas sobre sua origem e seu poder na mente humana.

De acordo com o psiquiatra Marcos Alexandre Gebara, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o TDI “não é um transtorno comum. É um fenômeno que cria uma aura de mistério, sempre retratado na literatura e no cinema porque desperta o interesse”.

Em entrevista ao site HuffPost Brasil, Genebra afirma que criar 23 personalidades – como no filme – é raro, porém não impossível. “Há casos descritos que têm até 60 personalidades. Quanto maior o número, no entanto, mais raro é o caso”.

tranastorno-de-personalidade-01

Origens

O transtorno começou a ser estudado por Sigmund Freud, no século 19. De acordo com os especialistas, as pessoas que sofrem de TDI mudam de personalidade quando não conseguem resolver algum problema. Essa mudança de personalidade é um mecanismo de defesa. 

O que difere esses indivíduos das pessoas comuns, é o controle de consciência de seus atos nas mais variadas situações. “Uma personalidade funciona de uma forma em um determinado momento e, quando há uma transposição para outra personalidade, ela não se lembra do que aconteceu”, explica Gebara.

Muitas pessoas confundem o Transtorno Dissociativo de Identidade com a esquizofrenia. “A esquizofrenia incide na experiência presente do sujeito, não tem uma personalidade sobre a outra.

Há uma polifonia, uma confusão de vozes e alucinações”, compara o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP. “É como se na esquizofrenia uma pessoa ouve vozes da multidão, enquanto uma pessoa com transtorno de múltiplas personalidades ouve um dueto, uma hora canta um, outra canta outro. Nunca ao mesmo tempo”.

A maioria dos casos de fragmentação da identidade se inicia na infância decorrente de traumas: a criança cria uma nova personalidade a fim de enfrentar momentos de estresse, como como abuso sexual, psíquico ou físico. 

A fragmentação das personalidades também pode se iniciar na fase adulta decorrente de um grande trauma, como acidentes ou desastres. 

Um caso recente que chamou a atenção dos especialistas foi o de uma alemã, que não teve o nome revelado, de 33 anos, que estava cega há mais de 13, como consequência de um acidente traumático. Ela conseguiu voltar a enxergar ao mudar de personalidade.

A paciente tinha sido diagnosticada com cegueira cortical, dano cerebral ocasionado pelo acidente, e voltou a enxergar durante uma sessão de terapia, ao apresentar a personalidade de um menino. Ela foi diagnosticada com Transtorno Dissociativo de Identidade. 

“Aos poucos, foram identificadas mais de dez personalidades que tinham diferentes nomes, idades, gêneros, atitudes, opiniões, temperamentos. A voz, a postura e as expressões faciais também se diferenciavam. Em certos momentos, B. T. falava apenas em inglês e, em outros, apenas em alemão ou misturando os dois idiomas”, diz o artigo do psiquiatra alemão Bruno Waldvogel e do professor do Instituto de Medicina Psicológica de Munique, Hans Strasburger. A publicação foi divulgada em 2015, na revista científica PsyChJournal.

O mais curioso é que a paciente só conseguia enxergar quando outra personalidade estava ativa, mostrando que a cegueira era psicológica. Este caso é um exemplo que comprova que os transtornos neuróticos associados ao estresse podem alterar o corpo humano.

Transtornos, gênero e cultura

O transtorno pode ser relacionado com as diferenças culturais. Por exemplo, o índice nos Estados Unidos é muito maior do que na Europa e América do Sul.

Segundo Christian Dunker, da USP, isso ocorre devido à variação cultural. Ou seja, a forma como que cada cultura lida com o sofrimento psíquico e interpreta os conflitos e divisões sociais.

Os especialistas não têm números concretos de casos no Brasil. De acordo com alguns estudos, o TDI pode afetar apenas 0,5% e 1% da população.

De acordo com Gebara, as mulheres têm duas a três vezes mais chances de desenvolver o transtorno.

Uma possível explicação para esse índice, são os abusos físicos e sexuais a que estão vulneráveis. “É uma hipótese que faz sentido porque elas são mais indefesas nessas situações de estresse intolerável, principalmente na infância”, explica.

Identificação e tratamento

Segundo o diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria, não é difícil identificar uma pessoa com TDI. Muitas vezes é possível diagnosticar esse quadro na infância, com mudanças bruscas de voz, no discurso e na postura.

“Você conhece a pessoa de um jeito e, de repente, vê de um outro jeito completamente diferente. Até as feições e o tom de voz mudam”. 

Normalmente, a pessoa que sofre de TDI não identifica essas mudanças. Os professores e os pais são quem identificam o transtorno.

O primeiro passo para o tratamento é passar por consultas psicológicas e fazer o uso de medicações que diminuem a ansiedade e angústia.

“A psicanálise tenta reconciliar a pessoa com seus conflitos, técnicas que possam fazer a integração dessas personagens. A pessoa precisa reconhecer que aquilo é reprodução dela”, disse o psicanalista Christian Dunker.

Fonte: HuffPost Fotos: Reprodução / HuffPost

Jornal Ciência