A “Mulher da Casa Abandonada”: Margarida Bonetti dá sua versão, pela primeira vez, e especialistas dizem valor da misteriosa mansão

Após se tornar um dos maiores virais do Brasil depois de podcast, o público se pergunta quanto custaria o imóvel e Margarida Bonetti se pronuncia sobre acusações de escravidão

de Redação Jornal Ciência 0

Tudo começou quando o podcast com título “A Mulher da Casa Abandonada”, criado pelo jornalista Chico Felitti, tornou-se um dos assuntos mais comentados nas redes sociais.

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A história, de início, não teve muita repercussão, mas os ouvintes começaram a pesquisar as informações, dando início a uma avalanche de conteúdos, reportagens, vídeos e especulações.

Com os episódios publicados, o podcast é o mais escutado no Spotify desde o lançamento, em junho. Desde então, começou um verdadeiro “desespero” para saber quem era a mulher flagrada na janela do imóvel, com o rosto “pintado de branco”.

O podcast afirma que o casarão com aparência de abandonado, localizado em Higienópolis, um dos bairros mais caros de São Paulo, é habitado por uma mulher procurada pelo FBI, chamada Margarida Bonetti.

A mulher teria fugido dos EUA após a polícia iniciar uma investigação contra ela e seu marido, Renê Bonetti, por manter, em situação análoga à escravidão, uma funcionária doméstica por mais de 20 anos.

Margarida teria se escondido na casa da família, onde mora há 24 anos. A denúncia, trazida à tona, diz que Margarida era responsável por agressões físicas à vítima, além de ter atendimento médico negado e jamais ter recebido salário pelo trabalho doméstico prestado. O marido Renê cumpriu pena de 6 anos e meio de prisão em solo norte-americano, enquanto Margarida não foi julgada por estar no Brasil.

No bairro, a Rua Piauí, próximo à Praça Vilaboim, a casa 1.111 está roubando a atenção de todos que por ali passam; tornou-se um verdadeiro ponto turístico.  

A mansão foi construída entre as décadas de 1920 e 1930 e possui 20 cômodos. O metro quadrado em Higienópolis custa algo entre R$ 12 mil e R$ 15 mil. Mas, se estivermos falando de um edifício com infraestrutura moderna, o valor chega a custar R$ 20 mil o metro quadrado. 

Levando em consideração apenas o terreno, sem estimar a construção de nenhum prédio futuro, o espaço com cerca de 500 metros quadrados tem como preço médio R$ 10 milhões! Se imaginarmos que fosse possível construir um prédio de 7 andares (altura proibida por estar nos arredores da praça tombada), com 2 apartamentos de 200 metros em cada andar, estaríamos falando de um valor impressionante de R$ 56 milhões!

Em 2018, Maria de Lourdes de Azevedo Tarnoczy, irmã de Margarida Bonetti, e também herdeira da mansão, entrou na justiça, junto com outros moradores do bairro e um escritório de arquitetura, para ir contra o tombamento dos lotes no entorno da Praça Vilaboim.

Eles pediam que fosse revista a altura máxima de construção dos imóveis do entorno da praça, mas o processo foi indeferido em 2019. Além da mansão na Rua Piauí, a família possui mais duas propriedades em uma rua ao lado.

Polêmicas

O podcast comentou ainda que moradores e vizinhos fizeram denúncias pelo descarte indevido de lixo e excrementos. Há algumas semanas, o Instituto Luisa Mell entrou na casa para resgatar 2 cachorros. Após o escândalo e a fama inesperada, a mureta da mansão foi grafitada com a palavra “Escravocrata”, para demonstrar a insatisfação social com o crime cometido contra a empregada doméstica.

Atualização

Chegou às plataformas de áudio, nesta quarta-feira (20/07), o último episódio do podcast “A Mulher da Casa Abandonada”, onde Margarida Bonetti dá sua versão sobre o caso, pela primeira vez.

Com quase 1 hora de duração, ela afirma não ter participação no crime ocorrido há 24 anos na casa onde vivia com seu ex-marido, Renê Bonetti, nos EUA. Margarida diz ser inocente de todas as acusações e que nunca foi citada pela investigação do FBI.

Chico Felitti, o jornalista responsável pelo podcast, confrontou Margarida em diversos momentos sobre os fatos apurados pelo FBI (polícia federal dos EUA) sobre agressões físicas, falta de salário e privação de atendimento médico para a empregada.

Segundo ela, o FBI está mentindo sobre essas afirmações e as provas fazem parte de uma conspiração das autoridades dos EUA para, na época, beneficiar as empregadas domésticas estrangeiras que trabalhavam nos país.

Margarida Bonetti diz ao podcast que se distanciou de Renê quando foi condenado pelos crimes e o divórcio oficial saiu em 2007, quando ele terminou de cumprir a pena. “Eu me divorciei desse homem por causa dessa porcariada toda. Dessa imundice toda, tá?”, explica.

Ela insistiu em diversos momentos que não sabia nada sobre o que acontecia com a empregada doméstica: “Eles pensam que a pessoa que é casada com alguém que fez algumas coisas, que ela sabe do que ele está fazendo e tudo e eu não sabia de nada do que ele fazia, tá? Eu não sabia”, diz.

Margarida afirma ainda que a conspiração ocorreu por um grupo de advogados junto com o FBI para aprovar uma lei no Congresso dos EUA: “Eles criaram essa coisa toda, essa imundice, inventaram um monte de coisas e é por isso que eu faço questão de falar com você. Porque eu quero que você saiba o que foi inventado”, salienta.

A lei que Margarida Bonetti cita, era um projeto que dava às empregadas estrangeiras a oportunidade de ficar legalmente nos EUA se denunciassem seus patrões por trabalho abusivo ou agressões. Após o escândalo do caso Bonetti na imprensa, a lei foi aprovada.

“Existia, não sei se ainda existe, como se fosse uma máfia, organização de advogados que queriam ganhar dinheiro através do caso das empregadas que iam pros Estados Unidos e queriam se desvincular dos seus patrões”, explica.

Segundo ela, a lei não queria trazer benefícios para as trabalhadoras domésticas, mas sim tirar dinheiro dos patrões: “Eles precisavam que fosse aprovada uma lei para que isso fosse possível, para que elas pudessem se desvincular legalmente dos patrões sem ficar ilegais lá no país”, completa.

Ainda na entrevista, Margarida diz que a empregada “era sua melhor amiga”. Mas, apesar disso, desconhecia completamente se a mulher recebia salário pelo trabalho.

O jornalista confronta sobre a falta de atendimento médico com a informação de que a vítima chegou ao hospital com 7 tumores na barriga, vomitando sangue. Margarida Bonetti disse que tumor é “coisa normal” e que acontece em mulheres, “principalmente as negras”.

“Esse tumor se alimenta pelos vasos sanguíneos e pelos hormônios da pessoa, entendeu? Então uma mulher, principalmente as negras, isso foi me dito, que as mulheres de raça negra têm maior tendência a ter esse negócio”, argumenta.

O FBI diz que não existe nenhum registro de atendimento médico em clínica ou hospital da empregada doméstica, em território norte-americano, depois de 1984. “Ele [Renê Bonetti] deu todas as provas para o FBI. E o FBI pegou e fez isso, sumiu com tudo e depois disse que não existia. O que é uma grande mentira”, rebate ela.

Ela termina explicando que não fugiu dos EUA, mas que o casal estava no Brasil, quando seu marido voltou sozinho para lá e encontrou a casa sem a funcionária. Então, Renê soube da investigação do FBI. A denúncia ao FBI teria sido feita por uma vizinha.

Margarida Bonetti afirma que não sabia nada sobre o que era combinado entre a empregada e Renê Bonetti, já que Margarida teria ido para os EUA por ter a saúde muito frágil e não cuidou de nada relacionado à mulher.

Por fim, Margarida pede que o jornalista não publique o podcast ao terminar a entrevista, pedindo para Chico Felitti abandonar o caso e “buscar dinheiro em outra coisa”. O jornalista não acata o pedido e publica a entrevista concedida. O caso dos Bonetti tem importância sociológica, já que reflete detalhes relevantes sobre a elite brasileira.  

Fonte(s): Exame / Podcast Chico Felitti Imagens: Reprodução / Redes Sociais / Google Maps

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