Cientistas conseguem curar câncer em estágio avançado com tratamento experimental

de Merelyn Cerqueira 0

Um homem com câncer de próstata em estágio avançado viu sua doença desaparecer após médicos “explodirem” um tumor, utilizando grandes quantidades de testosterona.

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O pequeno ensaio clínico experimental ainda em curso também retardou o progresso da doença na maioria de outros 46 pacientes. Os primeiros resultados foram considerados imprevisíveis, porque acredita-se que o câncer próstata use a testosterona como combustível, e a maioria dos tratamentos atuais trabalha pela supressão do hormônio, de acordo com informações da Science Alert.

Para o pesquisador Sam Denmeade, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA, os resultados são inesperados e empolgantes. “Nosso objetivo é explodir as células cancerígenas expondo-as rapidamente a níveis altos e baixos de testosterona”. O pequeno ensaio clínico foi conduzido em uma amostra total de 47 pacientes com câncer de próstata em estágio avançado e resistentes a tratamentos associados a duas das mais recentes drogas de terapia hormonal: enzalutamida e abiraterona.

A maioria das terapias recentes utiliza uma abordagem de supressão do hormônio, que em si funciona como o combustível do tumor. No entanto, ele pode rapidamente se tornar resistente ao tratamento. Porém, em resultados passados, especialistas mostraram que níveis elevados do hormônio poderiam suprimir ou até mesmo matar as células cancerígenas da próstata. Com isso em mente, a equipe da Johns Hopkins resolveu tentar algo diferente.

Foram administrados pelo menos três ciclos de uma terapia androgênica bipolar (BAT), que envolve uma alternância entre inundação e supressão de testosterona. Basicamente, três doses altas do hormônio foram administradas a cada 28 dias, ao passo em que os pacientes também tiveram que tomar uma droga que impedia a produção natural do mesmo nos testículos. O sucesso do procedimento foi medido a partir do monitoramento do tamanho dos tumores, bem como os níveis do Antígeno Prostático Específico (PSA), que serve como um marcador para o câncer de próstata. Então, foi observado que os níveis de PSA caíram em cerca de 40% dos 47 participantes, e cerca de 30% dos homens tiveram os níveis cortados em mais da metade.

Um paciente em especial recebeu 22 ciclos do tratamento (quase dois anos) e verificou-se que seu tumor desapareceu completamente. “Muitos dos homens apresentaram uma forma estável da doença, que não progrediu por mais de 12 meses”, disse Denmeade. “Acho que podemos ter curado um homem cujo PSA caiu para zero após três meses, e como permaneceu assim por 22 ciclos, a doença desapareceu”.

Os resultados ainda não foram revisados em pares, e por isso devem ser lidos com cautela. No momento, os testes continuam em andamento, com pesquisadores recrutando cada vez mais pacientes. Até que o estudo esteja completo não teremos uma compreensão adequada do quão promissora a terapia pode ser. Um problema a ser considerado é que os pesquisadores ainda não estão completamente certos de como o tratamento funciona. Ao que tudo indica, parece envolver a sinalização e divisão celular, uma vez que grandes doses de testosterona parecem encorajar as células cancerígenas da próstata a quebrarem seus DNAs.

Referente aos efeitos colaterais, foi relatado que um paciente se queixou de um aumento de dores, enquanto outro sofreu com retenção de urina. Mas, de modo geral, o fármaco foi bem tolerado, considerando o tamanho pequeno da amostra. A esperança dos pesquisadores agora é conseguir recrutar mais 180 participantes. “Nosso problema é que esta não é uma droga que é de propriedade de uma empresa farmacêutica, é uma forma de testosterona genérica, portanto, avançar vai ser difícil devido a problemas com a obtenção de fundos para executar um ensaio maior”, explicou.

De acordo com Matt Hobbs, do Prostate Cancer UK, “esta é uma pesquisa intrigante porque oferece uma possível solução um tanto quanto inesperada para alguns homens cujo câncer atingiu tal estágio”, disse em entrevista ao The Telegraph. “Pode ser possível matar ou interromper crescimento de células cancerosas sobrecarregando-as com testosterona”.

Contudo, ele considerou que esta é apenas a fase inicial de uma investigação, e que mais estudos são necessários para que se possa entender exatamente o método. Além disso, há uma real necessidade de ensaios clínicos em uma amostra maior de pacientes. Os resultados iniciais do estudo podem ser conferidos na página da Endocrine Abstracts

[ Science Alert ] [ Foto: Reprodução / Flickr ]

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